Escrito em por
Ações, Arte & Design, Entrevistas.

O ativismo e a experiência do artista Maurício Kanno

artista-brasileiro-retrata-direitos-animais-arte-veddas-ativismo

CAMALEÃO: Maurício Kanno é um jovem vegano, jornalista, ativista, comunicativo, expressivo, polímata, um belo artista e com uma multiplicidade de talentos que fascina, mas, ninguém melhor do que ele mesmo para falar de suas características.
Maurício: Bom, eu sou um sonhador, um idealista, nunca aparentemente adaptado para a vida comum em sociedade, fui um CDF arredio quando criança e adolescente. Nunca tirei carta de motorista, por achar que nunca teria dinheiro pra comprar e manter um carro (ou que não valeria a pena me matar tanto para ter grana para investir nisso), sem contar que é um negócio que polui e cria congestionamento.
Sou também alguém sedento pela utopia de abraçar o mundo, tanto em termos de conhecer gente e culturas de toda parte, como de passar pelas mais diversas experiências, como jogar capoeira, treinar luta com espadas, fazer canoagem ou escalar o Monte Fuji. (Sim, já fiz tudo isso… rs)

mauricio-kanno-aventureiro-sonhador-mundo-viagens-esportes

CAMALEÃO: E além disso tudo como bem sabemos, você é vegano, ativista e um profissional dedicado, então, por favor conte mais sobre o Maurício profissional e também ativista?
Maurício: Minha formação universitária e experiência profissional é como jornalista, tenho orgulho de ter trabalhado como repórter na Folha de S. Paulo, pelo qual fui inclusive enviado para reportagens no exterior. Em dezembro, fiz um free-lance para o governo estadual paulista, escrevendo sobre 44 cidades do interior e litoral pelas quais viajei em Janeiro, onde em uma delas conheci o Coletivo Camaleão.

Atualmente estou entre dedicar-me com mais afinco à arte (ilustração, pintura e literatura) como ativista em defesa dos direitos animais, tento preencher os vazios que enxergo, de acordo com o que pode ser conciliado com minhas vocações, atividades que naturalmente já me atraiam, comecei fundando o GEDA (Grupo de Estudos de Direitos Animais) em 2007, que mantém palestras-debates mensais até hoje.

Porquinho-carinhosos-doceis-quadro-arte-pintura-direitos-animais-livres-liberdade-Lorenzo

Além disso, na medida do possível, eu tentei incluir a causa em meus trabalhos jornalísticos, seja durante o trabalho remunerado, ou aplicando minhas habilidades de comunicação em atividades extras da área.

Desde 2010, organizo o Sarau e Mostra de Arte Anual pelos Direitos Animais; este ano ocorreu o 4º evento, em abril. Desde 2012, organizo o Concurso Internacional Anual de Artes pelos Direitos Animais, pela rede social artística deviantArt, que foi indicado por uma amiga e então colega de um curso de desenho da Quanta Academia de Artes, renomada escola de artes da capital paulista, também faço minhas próprias criações artísticas em prol do movimento, na literatura, pintura e agora até na música e quando possível atuo na ONG Veddas dialogando sobre veganismo com os passantes na Avenida Paulista.

Ah, sem falar que ultimamente estive extremamente empenhado no projeto de criação de um partido político que lute pelos direitos animais no Brasil, seguindo a vertente abolicionista da escravidão animal. Estive cético no início quanto à viabilidade da proposta, mas a seriedade dos participantes (atualmente espalhados por mais de 6 Estados brasileiros, além do Distrito Federal) e a possibilidade de colocar com legitimidade institucional a causa na briga pelo poder no país me conquistaram.

gato-direitos-animais-arte-artistas-desenhos

CAMALEÃO: Interessante, realmente o movimento direitos animais tem que atuar em todos os meios, atingindo todos os públicos e com certeza o meio artístico é um grande precursor de mudanças sociais, tais mudanças conquistadas pelos movimentos sociais hoje se tornaram legislações posteriormente. E a sua dedicação ao ativismo animalista como iniciou e em qual época?
Maurício: Alguns meses depois de me tornar vegetariano, em 2007, por influência de um amigo, criei o GEDA.

Foi uma iniciativa inspirada numa palestra proferida na pós-gradução da USP pelo professor Gílson Schwartz, ele mencionava que, em sua própria época de estudante, durante a ditadura militar no Brasil, criou e participou de um grupo de estudos marxistas – clandestino, é claro. Da mesma forma, participei durante os anos de faculdade do então chamado Núcleo de Pesquisas em Histórias em Quadrinhos. Achei que seria natural usar essas experiências e formatos pela causa na qual eu passava a dar tanta importância a partir dessa época.

Aliás, a comparação entre as diferentes gerações me pareceu fornecer base para um paralelo muito interessante: em outra guerra a vencer (antes, contra a ditadura militar; hoje, contra a escravidão e matança dos animais), um corpo de cidadãos amparados por bom conhecimento crítico no assunto haveria de ser formado.

Mauricio-Kanno-artista-veddas-direitos-animais-vegano

CAMALEÃO: O movimento carece de grupos de estudo e de estudo, infelizmente, vemos muitas pessoas se dizerem ativistas pela causa, mas estarem atuando apenas com base emocional, apenas por “dó dos animais” e por não querer vê-los sofrer, falta postura ética verdadeira, um senso crítico e filosófico muito maior. 

E como apaixonado artista vegano, tem algum principal trabalho abolicionista preferido ou que tenha sido importante na sua carreira?
Maurício: Sim, esta é uma das artes que eu mais me orgulho, a ninfa rodeada de animais da floresta, produzida como trabalho de curso de ilustração infantil, levei cerca de 30 horas em seu planejamento e produção, ela foi criada na mesma época do concurso que organizava ano passado, como se eu também fosse participar (não poderia, afinal, eu era o organizador).

mauricio-kanno-ninfa-animais-floresta-artista-direitos-animais-libertação-arte

Foi talvez a minha primeira ilustração criada de fato para tentar promover os direitos animais pela arte, subvertendo certos conceitos (no caso, da heroína protagonista da história de mangá/anime, agora libertando animais explorados pela indústria de produtos de origem animal).

CAMALEÃO: Mas, e o concurso? Como funciona?
Maurício: O Concurso Internacional Anual de Artes pelos Direitos Animais (ou Internacional Annual Arts for Animal Rights Contest, em inglês, como foi originalmente concebido) foi criado no início de 2012 como uma espécie de extensão do Sarau e Mostra Anual de Artes pelos Direitos Animais, que já existia como “programação extra” do GEDA desde 2010. A ideia veio quando eu percebi, dentro da rede social artística deviantArt.com, que havia lá um montão de “contests” (concursos) acontecendo o tempo todo. Lá se relacionam artistas dos níveis mais amadores aos mais profissionais, das mais diversas partes do mundo. E as “contests” são uma interessante e saudável maneira de o pessoal avaliar como está o seu nível de habilidade.

Foi então que me veio a ideia: “Por que não criar também uma contest em prol dos direitos animais?”

Deu trabalho pra caramba fazer a organização, divulgação, avaliação das artes recebidas, mas valeu a pena, no ano passado 34 trabalhos (em sua maioria, pinturas tradicionais, digitais ou fotografias), vindos de 12 países diferentes: Estados Unidos (11), Alemanha (4), Reino Unido (4), Brasil (3), Canadá (2), Áustria, Croácia, França, Índia, Noruega, Síria e Ucrânia.

Sarau-Mostra-Arte-Direitos-Animais-Vaca-Máquina-de-leite-Veganismo

Vaca retratada na visão sádica dos consumidores e da Indústria que a veem como uma máquina de retirar leite.

Neste ano de 2013, tivemos cerca de 53 trabalhos inscritos de diversos locais do globo e até chegamos a ter um empate entre os finalistas.

devianart-concurso-internacional-artes-direitos-animais-meio-ambiente

Dá uma sensação maravilhosa isso porque nós verificamos então como existem pessoas talentosas criando maravilhas em prol de uma nobre causa em lugares tão distantes da Terra, com culturas tão diferentes!
Isso cria beleza e universalidade para a nossa causa!

 

CAMALEÃO: Gostaria de deixar uma mensagem final aos leitores?
Maurício: 
– Jamais se intimide. Jamais ceda à massa.

Para mim isso sempre foi natural, pois nunca gostei mesmo de ser “como todo mundo”. Mas quero dizer: se você acredita em algo que é certo e nobre, digno de se lutar em defesa, faça. E use nessa luta as armas em que você é melhor e te fazem sentir melhor. Sejam elas o esporte, a comida, a espiritualidade, a festa, o samba, o humor, etc. Não importa que não exista nenhum “grupo” na sua cidade no qual você possa entrar. Se ainda não existe o que você acha que é necessário (ou simplesmente legal ou divertido) existir, crie você mesmo. É a sua responsabilidade fazer isso!

Se você imagina algo e não faz, você está desperdiçando o seu talento e criatividade!
– Deixo meu exemplo de como eu, a cada momento, senti necessidade de algo e criei. É claro, podem não ser coisas tão “importantes”, dependendo da opinião de cada um. Mas foram muito importantes para mim. Vença o medo de interagir com as outras pessoas. Faça disso um desafio para a sua vida. Descubra a liderança que está dentro de você.

– Repare que eu, quando criança, era um CDF gago e extremamente tímido que sofria bullying por todos os colegas da escola. Lembro-me de ter chorado quando a professora me fez tentar falar algo trivial na frente da classe. Mas aos poucos, percebi que era importante que eu lutasse com todas as minhas forças para mudar. Fiz três anos de teatro amador no colegial; escolhi jornalismo como profissão; montei e mediei grupo de estudos; organizei e apresentei eventos artísticos diante de dezenas de pessoas antes desconhecidas, etc. Repare que são coisas totalmente opostas do que se esperaria de alguém que originalmente era extremamente tímido.

– E claro, tudo isso também vale como reflexão para você que não é vegano ou vegetariano, mas que está pensando no assunto. Talvez você acredite que não tenha força de vontade para mudar. Mas você tem, se você antes ler, pesquisar e conversar muito a respeito primeiro, até decidir (se for o caso) que essa árdua transformação é digna e vale a pena para você e para o mundo se tornarem cada vez melhores!

– Em todo caso, busque amigos. Não fique sozinho. Eu mesmo, só virei vegano depois de ter criado o Geda. Em 2007, eu ainda julgava que ser vegano era algo “radical” no sentido negativo, “exagerado”. Exposto ao debate, e com mente aberta o suficiente para enxergar argumentos melhores do que os meus… tornei-me hoje o que sou.

Contato:
mauricio.kanno@gmail.com
Tel. (11) 9-9564-4568

Deixe uma resposta