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O anúncio da criação de um novo partido político de escopo ambientalista pôs ativistas pela abolição animal de todas as partes do país em furor e mobilização. A ser comandado por Marina Silva, o novo partido de nome Rede Sustentabilidade já começou a decepcionar antes mesmo de entrar no cenário político.

A publicação do Estatuto oficial do partido aconteceu hoje no Diário Oficial da União, sob protestos dos frustrados abolicionistas que moveram uma campanha massiva pela internet recolhendo assinatura para que a discussão abolicionista entrasse na pauta de ação no referido estatuto.

Nós não precisamos ler detalhadamente o documento para nos depararmos com falácias de toda sorte, à começar pelo nome do partido. O ícone “sustentabilidade” é requisitado de forma vazia e sem lastro claro do que isto significa para este partido. Seja o que for que eles queiram entender por sustentabilidade, alguns indícios já nos apontam que esse entendimento não toca as questões abolicionistas:

No dia 16 do mês passado aconteceu em Brasília a plenária que discorreria sobre os entretantos e finalmentes da criação do partido; nesta assembleia, geral foi o desconforto da maioria dos presentes quando o ativista Bruno Pinheiro (FALA – Frente de Ações pela Libertação Animal) tocou em um assunto “indigesto”: a pecuária.

O ativista ressaltou que a atividade pecuária é exatamente o oposto da sustentabilidade, uma vez que é a principal responsável pelo desmatamento amazônico, pela degradação do solo e também pela contaminação da água, além de ser uma das atividades que estão mais ligadas a grilagem de terras (indígenas, sim) e ao trabalho escravo. Ele cita, em sua fala, a importância que a própria OMS (Organização Mundial de Saúde) dá ao caso.

Como resposta, Bruno recebeu críticas de estar emitindo sua própria opinião, e não da maioria ou de uma parcela considerável dos interessados.

A Rede Sustentabilidade em seu estatuto assume o compromisso de não aceitar doações ou apoio de empresas tabagistas e fabricantes de armas, por exemplo, mas não toca no assunto da pecuária.

Do meu ponto de vista político a Rede Sustentabilidade é apenas mais uma tentativa de Marina Silva – que já fez a dança das cadeiras em diversos partidos, inclusive no reacionário Partido Verde – construir um atalho até o poder.

Já do meu ponto de vista filosófico: o termo “sustentabilidade” é um daqueles axiomas que invocam milhões de ideias e conceitos sem na verdade identificar nenhum deles. O termo “sustentabilidade” é deveras metafísico, assim como a ideia de “bem” ou de “verdade”, e o mais problemático de todos: “justiça”.

A vaga ideia de que, assim como nestes exemplos, “sustentabilidade” seja algo benéfico, como um todo, pode levar com que as pessoas comprem qualquer discurso que se vista deste traje sem necessariamente saber quais são as falhas ou os pontos fortes do próprio discurso que estão defendendo. O resultado não poderia ser outro além da lerda e matraquenta reprodução de discurso.

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É bom salientar que se queremos tomar a sustentabilidade como meta, precisamos delinear as condições para sua existência e estabelecer nitidamente qual é o “conceito” da coisa toda. Não me parece possível que algum tipo de sustentabilidade (que não seja mais do que uma falácia ou de um discurso vazio) possa acontecer em um sistema que lucra com a opressão, a exploração, a degradação de todas as formas de vida como é o capitalismo; tampouco me parece viável qualquer tipo de mudança política, de forma geral, sem uma mudança drástica de hábitos e de visão do mundo.

Acredito que o veganismo, como prática individual, no plano micro é a única alternativa viável no que concerne a atuação política cotidiana para a construção disso que a que se pretende ser a tal sustentabilidade. No plano macro, o planos das grandes políticas e grandes mobilizações sociais que visam a melhoria, como um todo, da vida enquanto forma e conteúdo dos que vivem, somente a plena consciência de que um regime que lucra e é historicamente apoiado na opressão e na força de uns sobre os outros como o nosso, não será capaz jamais de produzir os êxitos de justiça social e de abolição que ambicionamos.

Embora hajam pessimistas em grande número, eu sempre acreditei em utopias. Fica a reflexão de Jack Kerouàc para fechar este artigo: “Somente as pessoas loucas o suficiente para mudar o mundo serão capazes de fazê-lo”. E Marina Silva não faz parte deste grupo.

Formou-se em Filosofia pelas Pontifícias Universidades Católicas de Campinas e São Paulo, é vegano e anarquista.

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