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Que os relutantes não sejam mais um obstáculo à abolição da matança de animais.

A maioria das pessoas, apregoando seu próprio nihilismo moral conservador e comodista, escolhe não fazer nada para abolir seu consumo de produtos feitos à custa da vida animal, alegando que vão ficar nessa posição enquanto os outros (os veganos) não conseguirem abolir tudo o que é feito à custa da vida animal.

Exigência de desempenho ético 100% para os veganos e autorização de comodismo nada ética com os animais de 100% para si próprias. Elas se aconchegam em seus hábitos confortáveis.

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Quando elas veem alguém abrindo mão do conforto tradicional de comer no padrão ditado, para poupar a morte de milhares de animais e parar de atormentá-los em suas vidas curtas e sofridas, essas pessoas, confortáveis e conservadoras em relação ao sofrimento que causam aos animais, ficam desconfortáveis e transportam seu desconforto, que deveria ser sentido apenas por elas, por não abolirem nada de seu consumo animalizado, para a outra pessoa que está fazendo sua trajetória abolicionista, a quem então acusam de abolir todos os alimentos animalizados de sua dieta, mas ainda usarem computador, carro, caneta bic, roupas tingidas, pratos e panelas que custam algo ao ambiente para serem fabricados etc.

Se os abolicionistas antiescravagistas houvessem dado ouvido a essas acusações, ainda estaríamos comendo nosso almoço e jantar com carnes e queijos preparados por uma pessoa descendente de outras sequestradas da África, transportadas em porões imundos de navios, vendidas em mercados abertos e açoitadas no pelourinho.

Sim, houve um tempo em que muitos abolicionistas foram acusados de pregarem algo “inviável”, “impossível” de ser alcançado. Cegas pelos hábitos nos quais se confortavam, as pessoas não conseguiam vislumbrar saída para o dilema que a proposta de abolir a escravidão lhes impunha: como libertar os escravos e ao mesmo tempo não perder um tiquinho do conforto costumeiro?

Hoje nos acusam do mesmo jeito, porque propomos a abolição de todos os usos e matança de animais seja para qual propósito for.

A coragem, afirmava Sócrates, é o enfrentamento do próprio medo. Ela não é uma virtude propriamente dita, é o movimento de saída do conformismo ou conservadorismo, a superação deles, quer dizer, a saída do padrão que impõe a todos a mesma forma. Enfrentando o próprio medo de perder alguns confortos no início, nos primeiros tempos de abolição de alimentos, diversão, cosmética e moda cruéis contra os animais, é preciso pensar de modo inverso ao usado pelo comodista conservador: o que já podemos fazer, por exemplo, deixar de ingerir alimentos animalizados, usar cosméticos testados em animais, visitar zoos, aquários ou farras nas quais um animal é torturado em público para mau deleite de mentes violenta(da)s, usar medicamentos testados em animais, é o que já devemos fazer, é o que temos como tarefa para fazer.

Enquanto isso, lutar para que o resto seja abolido é questão de coerência ética com o princípio de não causar dor, sofrimento e morte aos animais para extrair disso prazeres para si, uma espécie de coerência detestada por quem não quer perder seus hábitos confortáveis, algo típico dos conservadores.

É verdade que não aboliremos em um segundo a produção de todos os itens de consumo que hoje são dependentes da morte dos animais. Mas podemos adotar novos hábitos de vestir, comer, limpar, nos divertir e medicar, nos quais produtos que são feitos levando à morte os animais não sejam mais consumidos por nós. Isso já é 100% do que precisa ser feito? Não. Felizmente, essa taxa não fica em 0% como gostariam que ficasse os conservadores que nos acusam de não fazermos tudo o que é preciso enquanto eles não fazem nada do que já poderiam fazer.

Aqui no Brasil, as leis que levaram à abolição da escravização de afrodescendentes levaram 70 anos para alcançar a tal da Áurea. E a luta foi geral. De abolicionistas e de escravos. Cada um fazendo o que podia para por fim à barbárie e escuridão na qual os escravos sucumbiam pela moralidade católica branca.

Hoje, no abolicionismo animalista, os veganos têm apenas a si mesmos para levar adiante a tarefa de suprimir do mundo o sofrimento animal, a morte animal que vem pela mão do humano. Os animais não podem nos ajudar nisso, porque sua linguagem não é compreendida por nós.

Que os relutantes não sejam mais um obstáculo à abolição da matança de animais. Já temos que enfrentar nosso próprio medo de perder nossos confortos também. Não nos venham apresentar o balanço de seus desconfortos, causados pelo nada que fazem em prol dos animais. Nada de nossos desconfortos pode ser comparado ao tormento pelo qual passam os animais. Esse é o eixo ético ao qual os abolicionistas veganos se vinculam.

Sônia T. Felipe, doutora em Teoria Política e Filosofia Moral pela Universidade de Konstanz, Alemanha (1991), fundadora do Núcleo de Estudos Interdisciplinares sobre a Violência (UFSC, 1993); voluntária do Centro de Direitos Humanos da Grande Florianópolis (1998-2001); pós-doutorado em Bioética – Ética Animal – Univ. de Lisboa (2001-2002).

Autora dos livros, Por uma questão de princípios: alcance e limites da ética de Peter Singer em defesa dos animais (Boiteux, 2003); Ética e experimentação animal: fundamentos abolicionistas (Edufsc, 2006); Galactolatria: mau deleite (Ecoânima, 2012); Passaporte para o Mundo dos Leites Veganos (Ecoânima, 2012); Colaboradora nas coletâneas, Direito à reprodução e à sexualidade: uma questão de ética e justiça (Lumen & Juris, 2010); Visão abolicionista: Ética e Direitos Animais (ANDA, 2010); A dignidade da vida e os direitos fundamentais para além dos humanos (Fórum, 2008); Instrumento animal (Canal 6, 2008); O utilitarismo em foco (Edufsc, 2008); Éticas e políticas ambientais (Lisboa, 2004); Tendências da ética contemporânea (Vozes, 2000).

Cofundadora da Sociedade Vegana (no Brasil); colunista da ANDA (Questão de Ética) www.anda.jor.br. Coordena o projeto: Ecoanimalismo feminista, contribuições para a superação da discriminação e violência (UFSC, 2008-2014).

Foi professora, pesquisadora e orientadora do Programa Interdisciplinar de Doutorado em Ciências Humanas e do Curso de Pós-graduação em Filosofia (UFSC, 1979-2008). É terapeuta Ayurvédica, direcionando seus estudos para a dieta vegana.

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