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Artigos, Artigos sobre Direitos Animais.

Abolicionismo Animal de Resultado? Só se for de resultado mal obtido. Resgatam uma manada, um bando, ou seja lá o coletivo que cabe a cada espécie de animal, e acham que são heróis porque “salvaram da morte” aquele número de animais.

Acham que aboliram o sistema que força ao nascimento, criação, tortura e morte de 70 bilhões de animais por ano. Não. Os resultados são pífios, porque o sistema reproduz imediatamente o número de animais “resgatados”, sem sequer se coçar.

O único resultado real é que: (1) aqueles indivíduos resgatados não serão mortos para comida; (2) muita comida terá que ser plantada, cultivada, colhida, transportada, comprada e servida a cada um dos animais resgatados, por décadas; (3) os resgatistas não sabem como vão alimentar os animais pelos próximos 15 ou 20 anos e ficam acusando os “veganos” de defenderem a abolição e não adotarem os animais que eles resgataram sem consultar os veganos sobre a adoção necessária, antes de fazerem o ato do resgate; (4) o ato do resgate sempre tem repercussão na mídia; (5) iludem os novatos de que abolição deve ser feita com ações midiáticas, o que é sinônimo de imediatismo; (6) iludem os novatos de que abolição é isto, salvar uma meia dúzia (isso é resgatismo, não abole prática institucional alguma) quando não se faz mais nada em termos educacionais para derrotar o sistema do consumo (demanda por carnes, laticínios, ovos, couros e outros derivados de matéria animal) que é a causa da existência da matança de animais no mundo; (7) muitos “abolicionistas de resultado” midiático, digo, “resgatistas” midiáticos nem pararam de comer tudo que é de origem animal, muito menos de usar derivados de animais para tudo que é finalidade. Não há abolicionismo sem veganismo. Não há e nunca houve abolicionismo com mero bem-estarismo.

Abolicionismo é luta para décadas, não tem finalidade midiática, pois esta aparece e desaparece como fumaça em incêndio. E o abolicionismo, quando vem, vem para abolir de vez. E, por fim, não há como salvar da morte no abatedouro os 70 bilhões de animais assassinados todos os anos ao redor do mundo, porque eles comem muito, bebem muitá água, excretam, liberam gás metano, amônia e outros para a atmosfera. Só a abolição do consumo pode pôr fim à desgraça que está em curso no planeta (aquecimento global) por conta do consumo de carnes, laticínios e ovos.

Portanto, não é finalidade do abolicionismo “adotar” todos os animais, porque, simplesmente, somos apenas sete bilhões de humanos e temos apenas um planeta que está no estertor por conta dos 70 bilhões que resolvemos fabricar para assassinar.

Abolicionismo é para abolir a ideia de manter artificialmente, à custa da vida dos ecossistemas naturais, os animais que hoje são criados, torturados e mortos para alimentação, diversão, testes e produção de enfeites cosméticos. E esta abolição é apenas o primeiro passo, porque ainda teremos que cuidar de todas as demais questões da vida e da morte dos outros animais, sob a perspectiva ética da justiça, da igualdade e da não violência, algo que este sistema aí posto não permite realizar.

Nota do Portal Veganismo: A autora publicou uma interessantíssima nota chamada “Resgates nada abolem” sobre o artigo acima especificando, entre várias outras coisas, que “o resgate não mexe no sistema de produção e matança de animais para consumo humano, muito menos abole a tradição da comilança. Seu efeito midiático, se não for usado como oportunidade para educar quem se liga no acontecimento, é nulo, esvaindo-se ao sabor de outras notícias que distraem a mente ali sintonizada” ou outras importantes verdades como o fato de que “na linha de produção e da matança, cada resgatado é substituído imediatamente por outro animal que vai sofrer os tormentos e a morte antes destinada ao agora resgatado. Alguém trocou um animal pelo outro. Sentiu muito por um animal e nada pelo outro“.

Por fim, a autora finaliza afirmando que: “o valor da vida de um animal senciente não está atrelado de modo algum ao tanto de emoção e paixão que algum humano investe nela. As emoções e as paixões se esvaem“, ou seja, o valor de cada animal é inerente a sua própria individualidade.

Baseado nisso, conclui: “qualquer resgate que não planeje o respeito pelo valor da vida resgatada por, pelo menos, duas décadas (há animais que poderão viver mais do que vinte anos após o resgate, bovinos e equinos, por exemplo) é falho do ponto de vista ético, pois tal valor não diminuirá quando os resgatistas perderem o interesse pelos animais já resgatados e seguirem seu próprio curso biográfico, esquecendo-se da promessa que fizeram ao animal no ato do resgate: a de que jamais o abandonariam”.

Por esses motivos, o Portal Veganismo recomenda que as pessoas que quiserem dedicar-se a realização de resgates (resgatismo) façam com responsabilidade e não com “emocionalismo ou imediatismo”, começando pelo fato de que esses animais não devem ser comprados, entre outros erros costumeiramente cometidos.

Devemos também tomar cuidado com o crescente surgimento de “santuários” fundo de quintal, ocasionados exatamente por esses resgates impensados, que longe de serem locais de geração de bem-estar animal, tornam-se apenas depósitos onde eles se aglomeram em meio a vários outros animais, isento de planejamento financeiro ou planejamento de qualquer tipo, locais sem os devidos cuidados veterinários, sem técnica alguma desde a construção do local até o trato em si dos animais, questões logísticas, seguros, honorários advocatícios, etc.

Locais geralmente administrados por pessoas que mesmo movidas, na maioria das vezes, por boas intenções, tornem-se um prejuízo aos animais e um dano a palavra “Santuário”. Quanto aos verdadeiros Santuários de Animais devemos, claro, apoiá-los e não sobrecarregá-los como tem acontecido.

Sônia T. Felipe, doutora em Teoria Política e Filosofia Moral pela Universidade de Konstanz, Alemanha (1991), fundadora do Núcleo de Estudos Interdisciplinares sobre a Violência (UFSC, 1993); voluntária do Centro de Direitos Humanos da Grande Florianópolis (1998-2001); pós-doutorado em Bioética – Ética Animal – Univ. de Lisboa (2001-2002).

Autora dos livros, Por uma questão de princípios: alcance e limites da ética de Peter Singer em defesa dos animais (Boiteux, 2003); Ética e experimentação animal: fundamentos abolicionistas (Edufsc, 2006); Galactolatria: mau deleite (Ecoânima, 2012); Passaporte para o Mundo dos Leites Veganos (Ecoânima, 2012); Colaboradora nas coletâneas, Direito à reprodução e à sexualidade: uma questão de ética e justiça (Lumen & Juris, 2010); Visão abolicionista: Ética e Direitos Animais (ANDA, 2010); A dignidade da vida e os direitos fundamentais para além dos humanos (Fórum, 2008); Instrumento animal (Canal 6, 2008); O utilitarismo em foco (Edufsc, 2008); Éticas e políticas ambientais (Lisboa, 2004); Tendências da ética contemporânea (Vozes, 2000).

Cofundadora da Sociedade Vegana (no Brasil); colunista da ANDA (Questão de Ética) www.anda.jor.br. Coordena o projeto: Ecoanimalismo feminista, contribuições para a superação da discriminação e violência (UFSC, 2008-2014).

Foi professora, pesquisadora e orientadora do Programa Interdisciplinar de Doutorado em Ciências Humanas e do Curso de Pós-graduação em Filosofia (UFSC, 1979-2008). É terapeuta Ayurvédica, direcionando seus estudos para a dieta vegana.

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