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Artigos, Artigos sobre Direitos Animais, Artigos sobre Direitos Humanos.

Preâmbulo
Dizia o romancista Thomas Mann: “O escritor é um homem que mais do que qualquer outro tem dificuldade para escrever.” Eu, modestamente, discordo. Sempre deixei a escrita lá, no canto dela, esperando-a até que me seduzisse por uma ideia, ou até por uma causa! Amo tudo em relação ao ato de escrever: o germinar das ideias; a estruturação, mental ou no papel, do texto; a redação; as revisões – tantas quantas forem necessárias; as correções, supressões e adições de última hora; e a satisfação e contemplação do trabalho concluído e publicado, até que se perca na memória, contagiada por outras questões metafísicas e mundanas… A frase, contudo, cai como uma luva para o presente texto, que foi não só o mais difícil, mas também o mais desagradável que já escrevi na vida…

O mais sinistro dos hóspedes…
Com este texto, e os próximos por vir, sinto que encerro um ciclo. Meu primeiro artigo publicado sobre direitos animais (conceito que eu, então, aplicava) tratava do processo da ONG ABC sem Racismo contra a ONG Holocausto Animal por divulgar dois cartazes, um em que corpos empilhados de judeus assassinados em campos de concentração eram postos ao lado de corpos empilhados de porcos, e outro em que um escravo negro e um cão amordaçados eram postos lado a lado.

Um movimento, já diz o nome, tem uma direção, uma meta, um objetivo. Ele deve caminhar neste sentido. Tristemente, eu constato que ativistas saíram, novos entraram, e o movimento andou em círculo. Continuamos a debater os mesmos temas, como se fossem mistérios insondáveis ou impasses teológicos dignos de um Concílio que impusesse, de cima para baixo, um dogma para desatar o nó que nos impede de seguir o nosso rumo. Pior: talvez mesmo tenhamos retrocedido – pois aquilo que foi um embate externo em 2007 é, agora, um embate interno. Subitamente o abolicionismo, seus fundamentos, sua narrativa e sua teleologia estão suspensos. O pós-modernismo enfim, finalmente, infelizmente, adentra o meio animalista.

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Belas palavras, tristes efeitos
Agora este grupo, os interseccionais, reproduzem a mesma lógica especista, o mesmo egoísmo da dor[1] que não admite a igualdade fundamental entre os indivíduos do mundo animal. E não admitem que não o admitem. Ao me dar conta do fenômeno, eu escrevi a Trilogia “Debates Interseccionais e Veganismo” que, como esperado, causou muita injúria entre os interseccionais, que se veem como defensores de um “veganismo social”, que diz conciliar as lutas por libertação animal e libertação humana. Não vou debater sobre estes conceitos agora. Quero, antes, me deter sobre a “Resposta ao Artigo Debates Interseccionais e Veganismo” (doravante, referida como “Resposta”), publicado no blog Veganagente.

Em primeiro lugar, tentei extrair o sumo das ideias de meu interlocutor, por trás da sua tentativa de “desconstrução” dos meus textos, carinhosamente apelidados (não pelos interseccionais) de “Trilogia Maldita”, alcunha que abraço sem restrições.

Confesso que a primeira coisa que me veio à mente enquanto lia o texto foi um nome. Hayek. Friedrich August von Hayek escreveu a bíblia do neoliberalismo: O Caminho da Servidão. Sua prosa é clara e serena. Trata-se de um libelo ao sistema de competição de mercado (capitalismo) como garantidor da liberdade individual, que estava sob ameaça nos países que então iniciavam a construção do que conhecemos como Estado de Bem-Estar Social. Dizia Hayek, o Welfare State inevitavelmente levaria ao socialismo e ao totalitarismo. Não há outro caminho senão a organização social sob os moldes liberais. Em inúmeros trechos ele louva as “boas intenções” dos socialistas e os convida à reflexão. Seu argumento é que pelo capitalismo liberal atingiremos o estado de prosperidade e liberdade que os socialistas tanto almejam.

Investigando mais a fundo, porém, no próprio livro há várias passagens sombrias, como a defesa do desemprego e da necessidade de um exército de desempregados para fases de expansão produtiva. Passeando pela longa biografia de Hayek, que somente se extinguiu em 1992, nota-se que este apaixonado (?) defensor (?) da liberdade (?) visitou o Chile da ditadura de Augusto Pinochet, fez palestras, prestou consultoria e deu entrevistas, afirmando sem qualquer constrangimento não só seu entusiasmo com a ditadura Pinochet, mas também seu respaldo às demais ditaduras latino-americanas, que varriam o “perigo vermelho” do continente.

Dogmatismo, contradições e violência: eis o legado de Hayek para a humanidade. Isto serve para ilustrar como boas ideias, belos conceitos, coisas que a maioria dos seres humanos aprovariam sem hesitação – como liberdade individual, tolerância e limites sobre a interferência do Estado na vida do cidadão –, embalados numa bela retórica, podem esconder, na melhor das hipóteses, ideologias e métodos equivocados. Na pior delas, perversidade e falta de escrúpulos daqueles que promovem tais ideias.

Creio que os interseccionais são – em maioria – bem intencionados, porém profundamente equivocados – e as principais razões para isso já explanei em minha Trilogia Maldita. Assim como o amor de Hayek à liberdade fomentou ditaduras, assassinatos, fome e miséria, também o amor dos interseccionais aos recortes de gênero, etnia, classe, etc., para emancipar as minorias e acabar com as opressões pode levar à violência, ao preconceito – de ambos os lados da fronteira por eles traçada –, ao silenciamento, a novas opressões e novas formas de cercear a liberdade. Além de um retrocesso imensurável em relação à filosofia do Esclarecimento (vulgarmente conhecida como Iluminismo) e às ideologias políticas revolucionárias dela derivadas – o liberalismo, o anarquismo e o socialismo, em suas mais variadas vertentes – que propiciaram inúmeras conquistas à humanidade. Conquistas que nós, abolicionistas, queremos estender ao restante do mundo animal. Voltarei a estes pontos, e apresentarei reflexões adicionais ao tema. Mas antes, eu assumo a triste necessidade de oferecer o devido esclarecimento às infâmias que meu interlocutor, com excesso de otimismo, intitulou de “Resposta”.

Resposta infame, tréplica constrangida
Não me agrada debates públicos que não sejam pautados pelo respeito. Mas tampouco se pode falar com respeito de todos os temas. Como respeitar o nazismo ou o maoísmo, por exemplo? Mas há uma linha tênue entre opor-se a uma teoria, filosofia, ideologia, doutrina, religião, etc., e sair atirando a esmo contra aqueles que brandem as ideias a que você se opõe. Aí a questão adquire um caráter perigosamente pessoal. Além de não contribuir a qualquer tipo de conhecimento. Por isso, Michael Mann, por exemplo, no livro que citei na Trilogia, dedicou-se, em suas próprias palavras, a levar os fascistas a sério – pois esta é a melhor forma de neutralizar sua ideologia nefasta. E esta é também a diferença entre mim, que me propus a confrontar uma ideologia que considero potencialmente nefasta, combinando análise e exposição de fatos amplamente conhecidos no meio animalista, e meu interlocutor, que se dedicou a distorcer cada uma de minhas palavras e deformar integralmente a minha imagem. Na internet isso é “quase” inofensivo. Num ambiente universitário ou de trabalho seria bem temerário. No âmbito da política, absolutamente destrutivo. Esta é, portanto, uma tréplica necessária para limpar o terreno sobre o qual pretendo aprofundar minhas reflexões sobre este fenômeno, o interseccionismo, no que será uma nova Trilogia – Demoníaca. Volto-me agora à tarefa de extirpar as infâmias de um mau debatedor que, querendo ser referência no veganismo, sequer entende que o mais importante é debater ideias.

Ressalto que neste texto e a partir de hoje, em vez de “interseccionalidade”, usarei o termo “interseccionismo” para ressaltar seu caráter de ideologia política – o que em si não é demérito. Demérito é o que esta ideologia comporta.

Peço paciência ao leitor, pois o texto está necessariamente longo e deliberadamente contundente. Pois debelar infâmias nem sempre é tarefa das mais fáceis.

1) Falácias na superfície, especismo nas profundezas
Ao longo do longo texto, o autor me acusa de várias falácias, sobretudo a falácia do espantalho. Primeiramente me chamou atenção o quão pueril é esta forma de se argumentar e escrever, quando alguém se propõe a elaborar um texto sério e comprometido em defender uma teoria e refutar uma crítica. Filósofos de estatura não saem atirando invectivas uns contra os outros – bem, Nietzsche o fazia, mas como gênio que era, ele tinha licença poética para tanto; e tais invectivas, de todo modo, não faziam parte do núcleo de sua filosofia. Em todo caso, meu interlocutor definitivamente não é um Nietzsche. Ou um Kant. Ou um Sartre. Sequer em potencial. Com sua escrita desgastante e sem estilo, talvez ele possa um dia aspirar a ser um Hegel… o filósofo mais superestimado da história. Enfim, depois deste argumentum ad hominem assumidíssimo, eu gostaria de acrescentar ao conhecimento do meu debatedor outra forma de falácia: a falácia da falácia, que parte do princípio que um argumento está errado só porque foi apresentado de modo falacioso – isto é, apontar falácias, por si só, não é suficiente para refutar uma hipótese.

As “falácias” de que o autor me acusa são, basicamente, quase tudo eu afirmei sobre os interseccionais – com duas exceções interessantíssimas. Ora nega, ora justifica a agressividade dos seus pares – assim, note-se, inadvertidamente corroborando minha hipótese de que os interseccionais são violentos (por enquanto, apenas no nível simbólico) –, rejeita qualquer inconsistência ou incoerência por mim apontada na sua filosofia e indigna-se diante da ideia de que os interseccionais dão prioridade aos seres humanos e consequentemente caem no especismo. E, por fim, oferta-nos um silêncio absoluto quanto aos paralelos entre métodos e ideias de interseccionais e fascistas. Ou, como diria Freud: ato falho.

Diz ele, resumidamente, que não se trata de colocar os animais em pano de fundo, mas sim de ter tato com minorias oprimidas e desprivilegiadas da sociedade, cuja reação ao veganismo seria de antipatia ou repulsa se nós insistíssemos em afirmar que “vacas são estupradas”, que “os animais são escravos” e que para eles é uma “Eterna Treblinka”. São o que ele chama candidamente de “pequenas concessões”. Esquecendo-se que os animais já nos concedem tudo que têm – seu corpo, seu sangue e sua alegria. E quando nada mais resta, nada mais há a ceder.

Quero me deter num exemplo que ele deu, de traumas revividos por uma vítima de estupro quando esta se deparar com a afirmação de que “vacas são estupradas”.

Guardadas as devidas proporções, quando me tornei vegano, em 2007, li um texto (cuja autora infelizmente não recordo o nome) comparando o assassinato do menino João Hélio e da cadela Preta, ambos arrastados por um carro em alta velocidade. Bem, isto não engatilhou em mim nenhum trauma, já que nunca tive qualquer “vivência” parecida com isto. Mas a princípio senti que algo havia de errado nessa comparação. Resisti a ela. Talvez até tenha sentido certa indignação. Eu me tornara vegano havia poucos meses ou semanas, não recordo. Recordo, sim, que o texto ficou na minha mente. E quanto mais eu refletia, mais eu cedia à autora: duas vítimas, o mesmo crime, apenas uma solidariedade. E daí eu fui me sentindo cada vez mais indignado – Pelo fato do assassinato da cadela Preta ter sido visto como algo prosaico, ou pelo menos de menor importância. Sou eternamente grato a esta autora por ter – não desconstruído – mas demolido o meu especismo.

Então, a questão, por polêmica que seja, deve ser encarada sem medo – e neste tema do interseccionismo não há como fugir da polêmica, e se expor ao ódio e difamação, já que tais pessoas são incapazes de funcionar no nível da razoabilidade – e por isso poucos antes de mim se manifestaram publicamente a respeito. A questão é a seguinte: a vítima humana de estupro não consegue solidarizar-se com a condição equivalente da vaca, por trauma, por egoísmo da dor ou porque guarda dentro de si a presunção de que ela, como ser humano é mais importante em dignidade e respeito que os demais animais? E quem há de afirmar que seria diferente se nunca houvesse ocorrido tal estupro? De todo modo, com ou sem trauma, o que testemunhamos aqui é um caso de especismo.

E o que seria o papel de um abolicionista diante de tal caso? Ele tentaria – não desconstruir – mas demolir o especismo, com todo tato possível, apontando para a igual dignidade – não só das fêmeas, mas de todos os humanos em relação a todos os demais animais. Contudo, se por uma questão de empatia[2], o abolicionista decidisse apelar para a solidariedade entre fêmeas, ele poderia, por exemplo, explicar, de tal forma, o que se passa com as vacas leiteiras:

Sobre as vacas, vou falar de indivíduo, mas tenha em mente que isso acontece aos lotes, normalmente de 10 a 20 animais. Tenha em mente que o objetivo da indústria é um parto ao ano ou três partos a cada dois anos. Foi a forma mais lucrativa que encontraram de manter esses animais. Aos 7-8 meses: entram na estação da monta, onde são hormonalmente estimuladas (há diferentes métodos) e artificialmente inseminadas (fazem palpação retal para tocar o útero e ovários através do reto e com a outra mão proceder com a inseminação, feita por palpação vagina). Após 9 meses, ocorre o primeiro parto. O bezerro, se for para a indústria da carne recebe 24 de colostro antes de ser separado da mãe, se for para graxaria (ração, farinha de ossos, etc.), separam imediatamente. Ordenha: início imediato. Um mês após o parto, ela é inseminada novamente, fazendo ciclo de 10 meses, para dar três partos a cada dois anos. (Antes eram três, agora o método “otimizado” diminuiu o tempo entre as gestações.) Passará os próximos 8 meses prenhe e sendo ordenhada, para otimizar o tempo e o ganho em cima da exploração. No oitavo mês de gestação, ela é tirada da linha de produção e entra no período de secagem do leite para poupar o xorpo ao parto que acontece em um mês. Após o nascimento do bezerro, começa, tudo de novo e nesse processo de exploração contínua, a vida que era para ser 20, dura apenas, no máximo, 5 anos, onde, todo ano, seu único descanso disso é o último mês de gestação, no qual as vacas mais antigas já entram na agonia da separação do filhote. (Depoimento de Camila Vitte; ênfases minhas)

Ou seja: um regime industrial de estupro, que além de esgotar e ceifar a vida da vaca em um quarto da sua possibilidade, ainda gera o “refugo” da separação dos filhotes e a morte de bezerros. E é importante ressaltar essa “simetria” (embora por diferentes meios) que a indústria impõe a ambos os sexos: sofrimento e morte. O que se dá aqui é um regime sexista no sentido de atribuir uma função a cada sexo, mas isto não gera quaisquer privilégios ou hierarquias – de modo que comparar o que se passa na indústria leiteira com o machismo nosso de cada dia é, para começo de conversa, conceitualmente errado[3]. Mas se ainda quisermos comparar a condição das fêmeas humanas e bovinas, não me parece justo para com as últimas que a denúncia do que se passa na indústria leiteira tenha que esperar até que as mulheres estejam “preparadas” para ouvir sobre veganismo ou tenham superado seus traumas, grandes ou pequenos.

Um interseccional, por outro lado, não consegue entender a diferença entre ser vítima de um estupro e ter uma vida que é um ciclo de estupros; não entende que a dura vida de mulheres que sofrem algum tipo de abuso – sexual, físico, moral, psicológico – não é mais grave do que uma vida inteira, cortada pela quarta parte, separada dos filhos que serão mortos ainda bebês, em muitos casos.

Cito agora uma passagem da própria Resposta:

É leviano achar que os movimentos de minorias políticas estão se posicionando contra a postura de grande parte dos defensores dos Direitos Animais por interesses privados, tal como pecuaristas, “baconistas” convictos e inveterados, cientistas que exploram animais em laboratórios, organizadores de rodeios e vaquejadas e outros exploradores de animais. Não é interesse na exploração animal, mas sim descontentamento perante comportamentos viciosos comuns no nosso meio.

É leviano negar que os movimentos de minorias políticas estão imersos numa mentalidade especista, como toda a humanidade. É leviano negar que estes movimentos vivem, hoje, sob a égide do pós-modernismo, em que a cultura e a tradição são reificadas, postas acima do indivíduo, de tal modo, que considerar a transformação de seus hábitos é por si só caracterizado como uma afronta à sua “identidade”, um ato de “colonialismo”, “assimilacionismo”, “genocídio”, “epistemicídio”, etc. É leviano negar que tal reificação da cultura favorece a elite dominante de um determinado grupo étnico, religioso, “nacional”, etc. E que é por isso que vemos mulheres sendo cobertas da cabeça aos pés, apedrejadas ou mutiladas sexualmente, bebês homens circuncidados, o que também é uma mutilação, mas que não gera comoção internacional. É leviano negar que os grupos de minorias étnicas estão envolvidos numa prática de “resgate da cultura”. Aliás, não só minorias – vejamos o caso dos gaúchos que celebram suas tradições inventadas com muito churrasco, cavalos famélicos e animais maltratados. É leviano supor que esse resgate da cultura tradicional seja compatível com abolicionismo na medida em que, como já dito na Trilogia, os seres humanos se soergueram como espécie sobre os cadáveres de outros animais. Esta é uma realidade que eu conheço como pesquisador e como cidadão. O movimento negro tomou para si a defesa dos rituais de sacrifício, assim como os muçulmanos não abdicam do ritual halal, os judeus, do abate kasher, e os índios e seus descendentes, da caça. Agora, meus amigos interseccionais têm três linhas de “argumentação”: ou eu sou racista, ou eu estou esquecendo as práticas especistas dos brancos, ou eu estou negligenciando o fato de que a indústria da exploração animal é o maior inimigo. Qualquer uma das três é falaciosa e difamatória, pois extrai ilações igualmente levianas e cai na falácia do falso dilema.

É possível e necessário combater o especismo em todas as frentes: aquele que está no nosso cotidiano, por hábito, sem qualquer simbologia especial; aquele que tomamos como parte de nossa herança cultural e, portanto, identidade; e aquele sistêmico, promovido pela indústria agropecuária e fomentado pelo Estado.

Questionar as práticas destas outras etnias não implica apontar o dedo acusador – já que a cultura eurodescendente, aliás a maior consumidora de carne da história das civilizações, não tem estatura moral para tanto – e sim convidar ao diálogo honesto e não violento. E um diálogo honesto não parte do escamoteamento da realidade e da condescendência, em crer que o outro não é capaz de compreender, respeitar e – ora vejam – até mesmo vir a concordar com aquilo que temos a dizer.

Espero ter demonstrado, somente com estes exemplos, que não há falácia alguma em dizer que os interseccionais são especistas, que dão mais importância ao sofrimento humano e que, portanto, não são abolicionistas – não porque alguém lhes “cassou a carteirinha”, e sim porque eles não se enquadram na definição objetiva do que é abolicionismo: opor-se a todas as formas de especismo, lutar contra a escravidão e a exploração animal, não fazer distinção hierárquica entre as espécies animais e, enquanto ativista, atuar em consonância com estes princípios. Eles podem desejar a abolição, mas seus métodos não são abolicionistas – eles são, portanto, neo-bem-estaristas. Além disso, suponho eu, em seu subconsciente, eles carregam um ranço especista enorme, em favor do ser humano. Simples assim.

E para demonstrar uma última vez o especismo do meu interlocutor e seus acólitos, eu gostaria de – não desconstruir – mas refutar irremediavelmente o conceito de “humanismo” (e a antípoda que ele cita em outro texto – que nós, abolicionistas que nos erguemos contra o interseccionismo, somos “anti-humanistas”). O conceito de humanismo não tem lugar na filosofia abolicionista. Um conceito do Esclarecimento, aliás, que meu caro debatedor ataca enfurecidamente, devido à pigmentação da pele e origem social de seus primeiros filósofos[4]. Ele fazia então sentido, na transição do século XVIII para o século XIX, quando ainda se acreditava nos privilégios de origem; que a nobreza era intrinsecamente superior à plebe; bem como os brancos, aos negros – e alguns (inclusive Voltaire, admita-se) – questionavam até mesmo a humanidade dos africanos e afrodescendentes.

Hoje, quando se é abolicionista, a igualdade intrínseca de valor, dignidade, direitos dos seres humanos não pode ser nada mais do que senso comum. Já disse em outras ocasiões – por texto e por voz – que posturas conservadores que rejeitam tal igualdade estão igualmente em desacordo com o abolicionismo. Os interseccionais, com a malícia que lhes é própria, nos querem imbuir da mesma qualidade destes conservadores. Eles erram. Eles mentem. O autor da Resposta mente. Nós, abolicionistas, não somos, não devemos ser humanistas. Devemos rejeitar peremptoriamente este conceito.

Já ouço o alarme soando: “misantropia! misantropia!”; “reacionários! reacionários!”[5] Mas para quem tem ouvidos para ouvir, e cérebro para refletir, basta dizermos que somos Animalistas, e que neste termo está contido o reconhecimento da dignidade inerente e a defesa da vida, liberdade e integridade de todos os animais – inclusive o ser humano. Ou, parafraseando Sartre: O Humanismo É um Especismo.

Para concluir esta seção, gostaria de ressaltar que eles, como qualquer grupo vanguardista, subestimam a inteligência humana. Fosse verdade o que eles alegam para se promover, não haveria tantas mulheres – mais que homens –, negros e pessoas de baixa renda entre os veganos. E, como qualquer grupo vanguardista, eles se dão o direito de falar em nome de outros. A elite interseccional que eu vejo nas redes sociais é, com poucas exceções, tão (ou mais) jovem, branca e de classe média (ou média-alta) quanto os abolicionistas. Mas porque eles se entendem como imbuídos de uma missão (guardem esse termo!), eles se veem como representantes das minorias, perseguem quem deles discorda, os acusam de todo tipo de preconceito, e lançam mão de todos os meios possíveis para se impor – inclusive os métodos fascistas que já mencionei na Parte II da minha Trilogia Maldita.

Não há falácias na minha Trilogia, e não só a Resposta, com seus recursos baixos e mentirosos, mas também toda a reação que se deu em torno da publicação do meu texto, demonstram isso.

2) Ensaio acadêmico e metodologias falidas
Meu contendor critica meu texto por não apresentar evidências e não fazer estudos etnográficos ou qualitativos e quantitativos para sustentar minhas hipóteses. É curioso que ele critique a falta de rigor acadêmico do meu texto, ao mesmo tempo que outros interseccionais tenham me acusado de “academicismo”. Talvez fosse bom eles sincronizarem seu discurso. De todo modo, qualquer uma das acusações é tão somente ridícula. Pois eu mesmo jamais reclamei para meu texto a característica de um ensaio acadêmico – se o considerasse assim, tê-lo-ia submetido a alguma publicação especializada para ganhar uns pontinhos no meu Currículo Lattes.

Não bastasse o festival de distorções das minhas palavras e as acusações torpes contra aqueles que ousam desafiar sua ideologia, o meu contendor bem tem conhecimento dos motivos que me levaram a escrever tal texto e os fatos que nele cito – e cujas provas ele me cobra, embora elas estejam evidentes para todos que frequentem os grupos de veganismo nas redes sociais. Desse modo eu só posso concluir que mais uma vez ele mente. Descaradamente.

Meu texto era um texto ativista, um texto político, uma polêmica, e como tal, não poderia esperar seis meses, um ano de pesquisa para ser apresentado. Assim fosse, a batalha das ideias já estaria perdida quando o texto fosse publicado. Ele foi feito precisamente para suscitar o debate e, neste caso, incitar sim, o confronto. Pois diante do discurso e dos métodos empregados pelos interseccionais, eu não poderia agir de forma conciliadora como não agiria com outras ideologias que esposassem autoritarismo e preconceito. O principal objetivo da Trilogia Maldita – e da Trilogia Demoníaca que lhe seguirá – é trazer para o debate aqueles que estão à parte, os indecisos, e os poucos simpatizantes do interseccionismo ainda capazes de romper com esta filosofia deletéria. É iniciar a batalha de ideias para fazer prevalecer, sobre eles, o Abolicionismo.

3) Ativismo culinário, veganismo “gourmet” e mercado vegano
Este item é outro do qual o autor se aproveita para distorcer minhas palavras e tentar me desacreditar. Eu não quero “aparecer”, como alguns disseram depois que ousei desafiá-los. Pelo contrário, eu não tenho necessidade, e às vezes sequer vontade, de expor publicamente tudo o que penso sobre veganismo e ativismo, mesmo dispondo de um espaço para tanto. Eu o guardo para temas que considero relevantes para a causa.

Sobre a questão do mercado vegano e veganismo “gourmet”, os que me conhecem, meus poucos amigos e alguns companheiros de ativismo, sabem minha opinião, e eu a torno pública agora para dirimir de vez qualquer dúvida. Ela tem dois lados. Primeiro, ela não pode ser de forma alguma o foco dos veganos. Como habitante da cidade do Rio de Janeiro eu vivo imerso no veganismo “gourmet” e na total inércia do ativismo abolicionista. Eu sei o que isso implica e dos seus efeitos nocivos. O Rio de Janeiro é a segunda maior cidade do país, e mesmo assim ainda engatinha em termos de veganismo, de modo geral.

Contudo, eu não vou passar por revolucionário universitário pós-adolescente e dizer que o mercado vegano tem de ser combatido. Eis o segundo ponto: se ele for uma forma de levar o veganismo às pessoas relutantes que não querem abrir mão de seus prazeres do paladar, eu o considero – de forma complementar – válido e coerente com o abolicionismo. Eu bem sei do risco que ele representa para sua elitização ou deturpação, para que ele se torne um nicho de mercado e para sua – ainda maior – despolitização. O veganismo é um movimento político e não há como negá-lo. E é um movimento emancipatório. Contudo, até Marx publicou O Capital com recursos das fábricas de Friedrich Engels. Ou, como eu costumo dizer: “até para fazer a revolução é preciso dinheiro”. Então, se o veganismo de elite é insuficiente e indesejável por si só, sua existência pode sim, ser benéfica à causa – notem bem minhas palavras para não deturpá-las: contanto que ele não seja único ou predominante.

Eu não sei se os animais podem esperar pelo fim do capitalismo, ou se sua liberdade depende disto. Pelo sim, pelo não, eu lutarei por esta liberdade com todos os recursos disponíveis, e apoiareis todas as iniciativas de difusão do veganismo – mas tenho em mente que elas só serão eficazes se forem complementares. Ou seja: o que eu proponho é tão somente a pluralidade de ativismos que eu defendi no ENDA 2014 e reafirmei na minha Trilogia. Contanto que todos sejam abolicionistas, cada um atuando da forma que acredita – abrindo negócios veganos, fazendo permacultura ou levando o veganismo às comunidades carentes, sob uma perspectiva libertária, ensinando-lhes a serem autossuficientes – isso basta. Ninguém precisa se amar. Nem mesmo cooperar. Basta respeito mútuo e o entendimento de que a iniciativa de um complementa a de outro, no que se refere à Liberdade Animal. Como uma amiga disse antes de mim, o capitalismo não precisou ser abolido para que os escravos fossem libertados, ou que as mulheres adquirissem direito ao voto, além de outros direitos. Por que teria de ser este o caso dos animais?

A minha recusa a recusar absolutamente o mercado vegano e o veganismo gourmet é, talvez, um dos motivos pelos quais pessoas sem caráter têm questionado minha filosofia política anarquista. Entretanto, pensando como abolicionista, e pensando estrategicamente, eu defendo uma pluralidade de iniciativas que criem uma cultura abolicionista na sociedade – que pode andar de mãos dadas com a consciência anticapitalista, antiestatal, libertária, igualitária e individualista; ou que pode precedê-la. Do meu ponto de vista, tal convergência é mais que bem-vinda. Mas não podemos contar com isso para promover a nossa revolução – a da Liberdade Animal. Ou, ao menos, para trabalhar por ela. Se as duas vierem juntas, esta percepção virá no caminho – e, como eu disse acima, nós sequer começamos a caminhar – ainda estamos atados a um nó.

Enfim, se queremos encontrar a melhor estratégia para alcançar essa meta, a atitude mais inteligente, neste momento incipiente do movimento, é fomentar a pluralidade de estratégias – abolicionistas. Os interseccionais, por outro lado, são sectários, querem impor sua perspectiva única e fomentam a discórdia num ambiente do qual eles mesmos já se excluíram, conceitualmente.

Resumindo: o quanto antes a abolição da escravidão animal vier, melhor.

4) Pós-modernismo e Iluminismo
Como mencionei acima, e como sabe quem leu a Resposta, o autor me “acusa” de ser um herdeiro do Iluminismo – isto é, do Esclarecimento. Eu agradeço efusivamente o “insulto” e, por ora, demonstrarei apenas como este anti-Esclarecimento de um interseccional é mais uma evidência do caráter reacionário dessa ideologia no sentido estritamente político do termo: de representar um retrocesso no progresso da sociedade, das ideias e dos valores de liberdade, igualdade e fraternidade que o Esclarecimento não só trouxe para os holofotes – ele permitiu que frutificassem – pela primeira vez na história das civilizações. Ou seja: são os interseccionais os direitistas – não eu e meus pares ativistas. E eu tenho bons argumentos e bons companheiros para sustentar este ponto de vista – o que ficará para outra parte do texto.

Aqui, só me cabe dizer que este anti-Esclarecimento é mais um traço do pós-modernismo dos interseccionais. Meu contendor me desafia a apresentar evidências de algo que eu mencionei de passagem – como se ele, que também frequenta os meios universitários, não soubesse que um autor não precisa fundamentar todos os conceitos que aplica num texto – apenas os principais ou os obscuros. Por exemplo: seria absolutamente supérfluo a um estudioso do nazismo definir o que é “racismo” ou “antissemitismo” para sustentar que os nazistas eram adeptos dessas ideias.

Meu foco naqueles textos não era o pós-modernismo dos interseccionais, porque do meu modesto ponto de vista, este era algo autoevidente. De fato, antes de me deparar, no texto, com este “desafio” do meu debatedor, eu já estava a sublinhar cada um dos conceitos pós-modernos lá aplicados. Vivência, lugar de fala, discursos de ódio, Norte/Sul, empoderar, diálogo de saberes (cunhado, ou pelo menos propagado, por um ex-professor meu, uma das pessoas mais hipócritas, autoritárias e desprezíveis que já conheci – além de autor de textos tão ridículos a ponto de beirar o nonsense) e o meu favorito de todos os tempos – desconstruir. Aquele conceito que é a síntese do pós-modernismo: pois pode significar qualquer coisa e, portanto, não significa nada.

Falar sobre pós-modernismo é doloroso para mim, talvez traumático, mas sobretudo nauseante. Por isso eu sempre prefiro reservar-lhe apenas algumas linhas. No entanto, se compraz ao meu interlocutor que eu disserte sobre tão asqueroso assunto, eu o farei, dolorosamente, mais adiante. Por ora, eu digo a qualquer um que estiver lendo este texto: leia a Resposta e você terá um exemplo típico do que é um texto e um pensamento pós-moderno – cujos conceitos centrais foram, em sua maioria, elaborados por um punhado de homens de pigmentação branca, a maioria deles franceses. Mas claro, eu sei, isto jamais será uma refutação – apenas uma falácia que meu contendor usa contra mim, para inadvertidamente (?) cair, logo em seguida, em contradição.

5) Distorções, absurdos, ofensas, malícias e mentiras
Foram muitas, tantas, que eu poderia escrever um ensaio extenso só para desmantelar a imagem grotesca – o espantalho – que o meu querido debatedor criou de mim – talvez ao se olhar no espelho. Vou dar apenas um exemplo de sua torpeza, para demonstrar – mais uma vez – a falta de qualquer escrúpulo e o uso de métodos fascistas que é típico dos interseccionais. Algumas vezes ele me acusou de “colonialismo”, simplesmente por não compactuar com o especismo, esteja onde estiver. Mas nesta passagem, sem usar o termo, ele perde de vez a linha e parte para o ataque pessoal:

É curioso que ele exija dos não vegans de minorias políticas que se docilizem ao dialogar com os vegans, mas ele próprio se recuse a adotar uma postura diplomática, dotada de um mínimo que seja de empatia e noção de Antropologia – mesmo ele sendo um acadêmico das ciências humanas. Ele acaba legitimando todas as iniciativas, por exemplo, de vereadores e deputados evangélicos teocratas de proibir à força o sacrifício animal no candomblé, sem diálogo intercultural, sem diplomacia, sem nada além de força bruta. (ênfases minhas).

Dando por um minuto o benefício da dúvida ao autor, eu poderia sugerir que, talvez, ele não tenha entendido meu texto. É possível. Mas a consistência e virulência de seus ataques, conglomerada à sua tentativa pueril e canhestra de demonstrar conhecimento, pela proliferação, no texto, de denominações de falácias – que são elas próprias falaciosas – e conceitos pós-modernos, me faz deduzir que ele possui entendimento o suficiente para deliberadamente distorcer o meu texto, mentir, atacar e difamar minha pessoa – como aliás, ele o tem feito nas redes sociais.

Ele “sutilmente” questiona minhas credenciais acadêmicas. Muita gente pensa, pelo conteúdo das minhas palestras e meus textos, que sou filósofo. Os que me conhecem ou leem a descrição do meu perfil, sabem que sou historiador. O que poucos sabem é que eu sou especialista em relações internacionais e, particularmente, movimentos sociais transnacionais, que eu estudei no mestrado e doutorado. Eu os conheço o bastante para saber as possibilidades e limites de diálogo com estes e de transformação social pelas suas vias. E minha conclusão foi: não devemos nutrir pelos movimentos sociais os mesmos sentimentos românticos que outrora se voltavam para os Partidos Comunistas – uma história cujo resultado já conhecemos. Eu reitero que tais movimentos são especistas – que reagem contra qualquer questionamento de suas práticas, geralmente atribuindo ao debatedor os mesmos termos que meu contendor atribuiu a mim. Eu sei que, no presente, sua estratégia é agir em conjunto, e por isso um não farão aquilo que o outro não concordar. Seria preciso, portanto, convencê-los em bloco. Isto requeriria de nós uma estratégia e recursos humanos que não sei se temos. E muitas “concessões” que considero inadmissíveis, pois não resultariam em – não desconstruir – mas demolir o especismo entranhado na humanidade.

De todo modo, o que me avilta, e o meu querido debatedor não entendeu, é que eu não sou contra o diálogo com movimentos sociais. Eu não escrevi cinco, seis, dez páginas para defender isso, porque este não era o meu foco. O meu foco era o discurso e as práticas dos interseccionais – seu especismo, seu autoritarismo, o fato de que eles se voltam contra nós em vez de dialogar honestamente com eles. Ao adotar tal linha de ação, infelizmente, os interseccionais saem da esfera do veganismo, do abolicionismo – que são termos sinônimos. Não por minha vontade, não por “falácia”. Não por autoritarismo. Simplesmente por uma questão conceitual, uma questão de definição. Eu fui bem claro neste ponto, mas vou repetir: eles deixam de ser veganos porque abdicam do abolicionismo, porque colocam os interesses e as subjetividades humanas acima dos interesses e subjetividades dos demais animais.

O meu interlocutor perde completamente o ponto quando diz que eu exijo “docilidade” e que não tenho “diplomacia” simplesmente por me recusar a não esconder a verdade. Não se trata de uma “cultura branca” querendo colonizar outras, tampouco de força bruta. Trata-se de diálogo franco, em que a franqueza exige que se diga a verdade, a qual supõe, justamente, o respeito pela inteligência do outro, o entendimento que seus preconceitos podem ser – não desconstruídos – mas revelados e talvez superados pelo diálogo racional. Há muitas formas de se dizer a verdade! Não pela força das armas, não pela imposição da lei – eu jamais defendi a ação política institucional –, não pela conquista, não pelo preconceito (que aliás, é em si mesmo uma mentira, logo não comporta qualquer verdade). O ponto é – e eu deixei muito claro na Trilogia anterior: convidar para o diálogo sem abrir mão dos nossos princípios, sem tampouco se privar de expor a realidade dos fatos. Se fosse nossa luta, pelos nossos direitos, talvez pudéssemos fazer assim – pois seria decisão nossa. Fazer concessões em nosso benefício: reformismo (e temos visto, neste mesmo momento, neste mesmo país, a que situação o reformismo nos tem levado). Mas uma vez que assumimos a mais grave responsabilidade de todas – falar em defesa dos animais – neste momento perdemos a liberdade de fazer concessões, de sermos reformistas. Temos sim, de ser radicais e revolucionários – e isso é o oposto de ser colonialista e não implica, de modo algum, ser violento.

Se o interlocutor não está pronto para nos ouvir – como acontece com muitos homens brancos que transitam pela Avenida Paulista (que concentra a maior renda per capita do país), e são interpelados por ativistas veganos, então, deixemos o diálogo para outra hora. Ou dialoguemos com aqueles que estejam dispostos a nos ouvir. Quem conhece este “colonialista”, sabe que eu tenho outra máxima: “se você conversa com cem pessoas, e convence uma delas a se tornar vegana, isto será uma vitória”. É uma luta árdua, que encontra muitas resistências, gera muitas animosidades.

Quando eu digo que não quero um veganismo palatável, ou que se recuse a falar em estupro, escravidão ou holocausto, é porque eu creio, eu penso, eu sei por experiência própria, que só há um caminho para o veganismo, o abolicionismo: – não desconstruir – mas extirpar o especismo de nossas mentes, lutar contra ele com todas as forças. Só assim o ser humano dará seu reconhecimento à dignidade inerente e os interesses fundamentais dos demais animais. Este é o exercício de empatia que falta aos interseccionais. É uma luta fácil, a deles, capaz de angariar muitos simpatizantes. Ela só tem um inconveniente. Eles sacrificam os animais – os mais oprimidos de todos – no altar da cultura, da tradição, das diferenças, do gênero, da opressão humana.

6) Alguns depoimentos
Na sequência da publicação da minha Trilogia Maldita, eu não fui apenas alvejado por interseccionais. Eu fui também procurado por muitas pessoas que passaram por más experiências ou tinham depoimentos a prestar sobre os interseccionais. Quero aqui apresentar três depoimentos: o meu próprio, e de dois outros ativistas.

6.1 – Neste ponto, o leitor pode confiar no meu testemunho, ou me pedir, por email, as imagens de toda a discussão que culminou no meu banimento do grupo “Veganismo” do Facebook. Eu estava debatendo educadamente quando um homem que eu mal conhecia, e com quem não estava conversando, disse, pelo simples prazer de me atacar, que ia dormir pois não aguentava meu “academicismo”. Irritado e irônico, eu respondi: “me desculpe por ter estudado”. Foi a senha para eu ser acossado por três interseccionais que me chamaram de todos os nomes possíveis – reacionário, privilegiado, machista, racista, CARNISTA explorador dos animais, pois os usava apenas para atacar as minorias – eu, que tenho oito anos de ativismo vegano e sempre agreguei a este um sentido político, radical, libertário que ele nunca teve. No dia seguinte eu publiquei na mesma discussão um texto onde critiquei os interseccionais, falando, dentre outras coisas, que eles veneravam o machismo, pois este lhes dava a oportunidade de se vitimizarem e atacarem àqueles que deles discordam. Esta postagem foi usada como pretexto para meu banimento. Mas a pessoa que me insultou de todos os nomes acima, continua lá. E eu sei quem me baniu – e ele também sabe.

6.2 – Abaixo, na íntegra, o depoimento de uma ativista que foi expulsa do grupo Veganismo Social – Debates Interseccionais, que é onde eles se reúnem. A seu pedido, preservo sua identidade, para evitar represálias:

Apesar de ser eu uma mulher feminista, fui expulsa do grupo “Veganismo Social”. E o contexto da expulsão foi eu ter defendido que transmitir as ideias de Carol Adams e Alice Walker no ativismo pelos direitos não significavam machismo e racismo, mas sim uma necessária reflexão para conscientização da vulnerabilidade dos animais perante todos, inclusive perante grupos historicamente oprimidos. Algumas mulheres do grupo “Veganismo Social” passaram a desqualificar a minha argumentação, segundo elas, por partir de uma mulher branca em posição de privilégios sobre as negras. Em outras palavras, eu não poderia manifestar-me sobre ideias já veiculadas por Carol Adams ou Alice Walker, pois eu não poderia me colocar na posição de dor das mulheres negras. Não sei se as feministas negras do grupo interseccional que se manifestaram nessa interação comigo e chamaram-me de racista e machista eram veganas ou não, mas fui admoestada a não falar em escravidão animal porque isso “acionaria lembranças dolorosas na população negra”. Quando coloquei que, na minha opinião, essa restrição era absurda dentro de um grupo de veganismo porque silenciaria uma argumentação poderosa há tempos já desenvolvida por autores da ética animal, fui chamada de privilegiada, racista e machista. Tentei defender que a ética dos direitos animais era universalista e não compactuava relativização da exploração animal com grupos humanos oprimidos, mas aí fui acusada de tentar oprimir a voz das mulheres negras com um linguajar acadêmico. Fui expulsa do grupo algumas horas depois, sem aviso prévio. O que me parece claro é que os responsáveis pela decisão de me excluir, embora não tivessem que concordar comigo, teriam que garantir um espaço para diversidade de pensamento e opinião. Excluir a diferença de pensamento e discordância, sobretudo quando essa discordância se funda em ideias de autores e ativistas reconhecidos da causa animal, inclusive mulheres e negras, sob o argumento de não ferir suscetibilidades de determinados grupos, além de não ser democrático, não distribui equitativamente a parcela de empatia devida aos animais, e não permite a reflexão e amadurecimento necessários para ressignificação de termos da tradição antropocentrista. Para mim, ficou claro: para estar lá, eu teria que concordar com os termos dessas pessoas que interagiram comigo. Como discordei respeitosamente, fui expulsa. Sou feminista e solidária à luta contra o racismo sem flexibilizar a luta contra o especismo. Porque eu acredito que a verdadeira libertação humana só é possível em sincronia com a libertação animal.

6.3 – Este ativista também foi expulso do mesmo grupo. Ele me autorizou a declarar seu nome, mas não o faço, para, do mesmo modo, preveni-lo contra possíveis represálias. Reproduzo o texto como me foi enviado, apenas destacando uma frase próxima ao final:

Há quase um ano acompanhava algumas publicações da página Veganismo Discussões Interseccionais. Acreditava no começo que a luta pela emancipação humana se cruzar com a luta pelo fim da exploração animal era crucial, porém aos poucos fui percebendo que não era bem assim tendo contato com o pessoal da intersecção. A minha ideia é de que se deve sim se traçar uma relação entre as duas lutas: SEM EXPLORAÇÃO HUMANA E SEM EXPLORAÇÃO ANIMAL. Se não desejamos viver sob o jugo da exploração estrutural do capitalismo também não devemos explorar os animais não humanos, indivíduos sencientes, seres vulneráveis. Ponto. Aos poucos fui notando os métodos e vocabulário pouco produtivos de algumas publicações e comentaristas. A problematização infindável de tudo, as discussões que sempre ressuscitarão e parecem ter só um objetivo: a supervalorização do discurso em detrimento da prática. As relatividades e justificativas para validarem a exploração animais somente para não desagradar minorias ou outros grupos oprimidos (deixando claro que sou de esquerda, não sou contra minorias). Notei que muitos interssecs se utilizam de expressões como “vivência” “lugar de fala”, “protagonismo”, etc. Para a maioria deles (se não todos) se uma pessoa é homem cisgênero, heterossexual, branca e acadêmica, essa pessoa se torna automaticamente um opressor, mesmo que essa pessoa não contribua com injustiças, mesmo que ela possa contribuir positivamente com uma luta. Seu biotipo te condena, não tem “lugar de fala” no feminismo se vc é homem, não pode se manifestar. Se é um não negro você não pode falar no movimento negro, pois você não tem “vivência”, etc, e é muito comum o autoritarismo e intimidações nesses grupos quando seus métodos são questionados e você fica passível de expulsão num grupo de Internet e foi isso que aconteceu comigo nesse grupo: questionei. Os interssecs também são conhecidos como pós-modernistas por se utilizarem desses métodos obscurantistas, irracionalistas, sectários, etc. A terceira parte da trilogia de textos do Bruno Muller que criticava os interseccionais eu publiquei no grupo, sendo que as duas primeiras já haviam sido postadas anteriormente. Troquei algumas ideias sobre questões levantadas por duas pessoas numa boa, até que uma moça (vegana!) comentou: “NINGUÉM PODE FALAR EM NOME DO VEGANISMO PORQUE SÃO OS ANIMAIS QUE DEVERIAM PODER SE MANIFESTAR”, isso pra mim foi o cúmulo pois isso de “vivência”, “lugar de fala” já obstrui o debate e a prática das causas humanos, e se é bizarro pros humanos imagino o quanto não é quando aplicado à causa animal, aí ironizei isso, falei que parecia algo “sagrado” e contraproducente, aí começaram as intimidações de banimento do grupo, ataques por eu ser “omicis” e que eu não deveria opinar só por isso, que eu estava ofendendo as pessoas e não ofendi, tenho os prints! E quando publiquei uma resposta eu percebi que já havia sido expulso. Eis o autoritarismo justiceiro dos interSSecs.

Também me foram repassadas algumas imagens com evidências tanto da truculência e intimidação usada pelos interseccionais, quanto exemplos do mais puro especismo. Infelizmente, por motivos técnicos, não posso aceder a tais imagens. Mas espero fazê-lo em outro momento, e de todo modo reitero: todos que estão a par das discussões que ocorrem nos grupos de veganismo sabem do que eu estou falando. A diferença é que uns negam ou justificam (os interseccionais), outros constatam e denunciam (os abolicionistas que detectaram o perigo que o interseccionismo representa para os animais).

Claro que tais depoimentos não constituem material para uma tese. Mas são exemplos. Repito: pessoas têm sido sistematicamente banidas de grupos, sem qualquer direito de defesa, ou sendo atacadas e humilhadas antes do banimento, tendo suas palavras distorcidas, antes do dito banimento, como se fazia nos julgamentos forjados dos expurgos de Stalin. Está claro para quem quiser ver – não será por falta de vontade que os leitores não deixarão de encontrar. No fim, a conclusão é esta: o interseccionismo tem, à primeira vista, uma bela e louvável proposta. Na realidade, porém, se assemelha a um monstro, uma cruza perversa de fascismo, stalinismo e pós-modernismo.

Conclusão
Aqui termino minha participação em qualquer debate com o autor desta Resposta farsesca. Sim, eu me propus a combater o interseccionismo, mas o fiz com argumentos e honestidade. Não é preciso ser torpe para se opor a uma ideologia. Na Resposta, por sua vez, só vi mentiras, distorções, falsa erudição, repetições de lugares comuns e ataques pessoais. E é sintomático que o ponto mais importante de meu artigo – as embaraçosas afinidades entre sua ideologia, que se pretende libertária, e outra, liberticida, o fascismo – foi olimpicamente ignorado pelo autor. Medalha de Ouro para sua épica fuga.

Meu combate ao interseccionismo, porém, é outro assunto. E não se encerra por aqui. Só me darei por satisfeito quando essa filosofia especista, autoritária, retrógrada, reacionária, pseudoprogressista e pseudo-revolucionária houver perdido sua relevância no Movimento Abolicionista.

Notas:
[1]Conceito explanado por Rafael Bán Jacobsen por ocasião do mesmo evento de 2007, do processo da ABC sem Racismo contra a Holocausto Animal. Vale lembrar que Jacobsen é judeu observador – assim como Isaac Bashevis Singer, aquele mesmo que disse a frase exemplar: “para os animais, todos os homens são nazistas – para eles é uma eterna Treblinka”.

[2]palavra muito usada pelos interseccionais – para seus pares e aqueles que dizem representar, mas não para com os que deles discordam, ou os animais não humanos.

[3]Para além disso, como em quase todos, se não todos os casos, quando postos na balança, o peso da escravidão, exploração e opressão pendem com muito mais violência e radicalidade em detrimento dos demais animais.

[4]Como iniciante na academia, talvez ele não saiba que filósofos não criam ideias. Eles apenas manifestam as tendências de seu tempo, as ideias que estão espalhadas pela sociedade, e que frequentemente se irradiam pelos mais diferentes segmentos sociais.

[5]Conceito que eles mal sabem definir, assim como no caso do elitismo e do fascismo.

Bruno Müller

Historiador, doutor em História das Relações Internacionais pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Membro da Sociedade Vegana. Co-editor e colaborador da Revista Eletrônica de Direitos Animais Pensata Animal. Vegano e ativista independente desde 2007, ministra palestras e faz ações de conscientização em prol do veganismo e direitos animais na cidade do Rio de Janeiro.

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