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Artigos, Artigos sobre Direitos Animais.

Preâmbulo
Um dos primeiros, senão o primeiro a comparar o Holocausto com o extermínio de animais, e os campos de concentração com as fazendas de gado e abatedouros, foi um judeu, o consagrado escritor Isaac Bashevis Singer, Nobel de Literatura em 1978, que emigrou da Polônia devido à crescente onda de antissemitismo naquele país, pouco antes da Segunda Guerra Mundial.

Foi Alice Walker, escritora igualmente laureada, ativista dos movimentos negro e feminista, que disse: “Os animais do mundo existem para seus próprios fins, não foram feitos para os seres humanos, do mesmo modo que os negros não foram feitos para os brancos, nem as mulheres para os homens”. Walker era muito citada quando me tornei ativista, nos idos de 2007.

Foi outra feminista, Carol Adams, que tentou relacionar a condição da mulher na nossa sociedade com o carnismo no livro A Política Sexual da Carne.

Gary L. Francione, jurista e filósofo, escreveu um livro chamado Animals as Persons. Dizer que animais são pessoas significa dar-lhes o mesmo estatuto legal e moral de que desfrutam os seres humanos.

Sempre foi um mote do movimento: Especismo = Racismo = Sexismo.

Lema que lentamente cai em desuso, ou torna-se obsoleto, por razões que quero brevemente investigar, bem como as consequências que daí advêm, neste texto dividido em três partes.

 

O especismo está à porta
Cresce no dito “movimento de direitos animais”, ou “movimento vegano”, como preferirem, um grupo, e não é pequeno, dizendo que não podemos comparar a exploração dos animais com o sofrimento de determinados seres humanos. Que isso significa depreciar sua dor e séculos de opressão. Estes são os interseccionais, pessoas geralmente associadas a outros movimentos, os quais merecem mais prestígio e consideração – afinal, são movimentos humanos. Sob tal perspectiva não se pode comparar, por exemplo, o sofrimento de uma mulher com o de uma vaca. Isso é machismo. Ou falar que os animais são escravizados. Isso é racismo. Ou falar em Holocausto Animal. Isso é antissemitismo.

Eu também acredito que não há termos de comparação entre a opressão humana e a animal. Mas de resto, minha perspectiva é bem diferente.

Os animais foram os primeiros escravos da humanidade. Os primeiros deles foram domesticados há aproximadamente 14 mil anos. Usados, esgotados e mortos ou descartados – e é assim até hoje. Eles estiveram entre as primeiras formas de propriedade – logo, instrumentos de diferenciação social. Ter animais ou ter mais animais era um dos fatores que diferenciava um homem próspero e poderoso de outro pobre e sem voz. Assim como a escravidão humana, desde a Antiguidade, a escravidão animal não se tratava só da sua exploração, mas de preservar uma hierarquia social também entre os ditos homens livres.

O especismo é a ideologia mais entranhada na humanidade, inclusive entre os movimentos sociais e de direitos humanos. Mas os humanos oprimidos têm meios de lutar e resistir e por si mesmos. No presente, eles também contam com a proteção legal em muitos países, e quando este não é o caso, pode-se recorrer à solidariedade internacional, ainda que, frequentemente, o que se dá é o silêncio, porque a sacralização do Estado e da cultura contam mais que a solidariedade para com a pessoa que sofre – e isso inclui muitos ativistas sociais.

Os movimentos de direitos humanos são, HOJE, estruturalmente especistas. Eles não lutam apenas contra o “outro” opressor (real ou imaginado) ou sua personificação (a classe dominante, o capitalismo, o Estado, o homem, o homem branco, o civilizado). Eles também se afirmam em contraponto aos animais, pois, no seu raciocínio antropocêntrico, equiparar-se a eles é afundar ainda mais a sua posição social subalterna. Ou seja: eles não conseguiram transcender a origem das comparações depreciativas entre mulheres e vacas; judeus e porcos; negros e macacos; e tantos outros animais e indivíduos ou coletividades. Está fora do alcance da maioria que quando tais comparações são feitas de forma pejorativa (o que nunca é o caso dos veganos), elas precisamente ressaltam a semelhante posição de seres que são, ambos, considerados inferiores, objetos. E não é inteiramente sua responsabilidade, pois estão mergulhados numa cultura especista. Em todo caso, é papel dos VEGANOS prestar esse esclarecimento. Mas a maioria dos ditos veganos interseccionais aderiu à lógica especista dos opressores que eles dizem combater. Eles querem simplesmente atribuir valor às minorias étnicas, sociais e políticas às quais pertencem sem se preocupar em reconhecer a igualdade de valor e dignidade, entre humanos e outros animais – reconhecer que todos os animais são pessoas.

Além disso, muitas dessas minorias eram ou são, elas mesmas, exploradoras de animais. Além de ancestral, o especismo sempre foi amplamente disseminado na sociedade, embora não beneficiasse a todos igualitariamente. Ele não é uma ideologia de uma elite: pertence à humanidade como um todo. E nos tempos atuais, sob as famosas égides da religião, da tradição, da cultura, da identidade, da “liberdade”, e da estratégia adotada pelos movimentos sociais de agir em conjunto, nenhum deles, em particular, está sequer aberto a debater o veganismo. Ao contrário, seus membros vêm até NÓS veganos para NOS chamar de opressores, elitistas, fascistas e preconceituosos, e ditar qual deve ser NOSSO discurso e NOSSA estratégia, para sermos aceitos, respeitados e suficientemente inócuos para não ferirmos suas subjetividades, reduzindo o veganismo àquela maravilhosa fórmula, que nos faz sentir bem conosco, com nossos amigos “libertários”, mas que em nada contribui para a liberdade animal: “uma opção pessoal”.

O veganismo abolicionista, por sua vez, é estruturalmente diferente. DEVE sê-lo. Os animais não podem se libertar por si mesmos, são explorados até por humanos oprimidos, e a exploração e violência que sofrem, além de milenar, é de uma magnitude que poucos humanos experimentaram. Ela vai também na tendência oposta dos direitos humanos: enquanto estes tendem a se expandir, a exploração animal é regulamentada pelos Estados, legitimada pela esmagadora maioria, e afeta cada vez mais pessoas não humanas de diferentes espécies.

Os interseccionais discordam. E têm uma forma nada sutil de se fazer ouvir. Essas pessoas se dizem veganas, libertárias, feministas, antirracistas, mas excluem do debate os que discordam de suas diretrizes. Atiram-lhes termos pejorativos, intimidam e difamam. Mais importante, porém é a forma como se posicionam ante os animais:

Racismo = Sexismo = Todas as formas de opressão sobre humanos > Especismo.

Definitivamente não é uma abordagem a se seguir se quisermos nos autodenominar veganos e, mais importante (mas que muitos não entendem): se quisermos a liberdade dos animais. Esta é uma abordagem ESPECISTA, quando os animais não humanos são, ou pelo menos deveria ser, os protagonistas da nossa luta, e é por eles, e não por nossos direitos dietéticos, nem pelos direitos humanos que já têm seus meios de propagação, que criamos um movimento. Vegano. Abolicionista.

Bruno Müller

Historiador, doutor em História das Relações Internacionais pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Membro da Sociedade Vegana. Co-editor e colaborador da Revista Eletrônica de Direitos Animais Pensata Animal. Vegano e ativista independente desde 2007, ministra palestras e faz ações de conscientização em prol do veganismo e direitos animais na cidade do Rio de Janeiro.

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