Escrito em por
Artigos, Artigos sobre Direitos Animais.

Imagine que alguém pusesse você para dançar uma dança que você não sabe qual é, uma dança exótica, cujos passos são idealizados por esse outro ser estranho. Imagine essa dança realizada por seu corpo, mas orientada por esse outro, passando um ferro sobre sua língua, atado em correias que ele segura e puxa para si, forçando as duas laterais de sua boca, friccionando seus dentes molares, obstruindo seu movimento de engolir a saliva, um freio. Imagine-se nessa condição por horas. Todos os dias.

Sempre que o condutor dessa dança quiser fazer você parar, virar para um lado, seguir pelo outro, recuar, ele puxa com força o ferro que prende sua língua. Enquanto ele realiza a dança usando o seu corpo como par, sua língua está pressionada contra o fundo da cavidade bucal. Mal e mal você consegue engolir a saliva. Sua baba escorre, então, boca afora. Sua garganta seca. A dor é insuportável.

Se quer ter uma pequena ideia do que está lendo, enquanto lê, pressione sua língua contra o fundo da boca, mantendo-a assim até terminar a leitura. Se conseguir fazer isso sem babar o teclado, já está melhor preparado para ser montado e forçado com um freio a fazer coisas que não tem o menor propósito ou interesse em fazer. Sugestão de Nevzorov que estou repassando, pois fiz a experiência enquanto lia o texto explicando a violência de um freio na boca de um cavalo. Mas, vamos em frente! Mantenha sua língua presa pressionando com o dedo mais forte, porque senão você não vai aguentar o tranco.

equitacao-tecnica-ou-exercicio-de-andar-a-cavalo-bridão-freios-artigos-errado-andar-cavalo

Mas quem senta em cima de você, atrás de sua cabeça, comandando esses cordames que maltratam sua boca e destroem seus molares pelo contato e fricção do ferro (freio), jamais pode ver a sua expressão de dor e pavor, a sua boca completamente arremetida para um lado, para o outro, a cada investida para fazer você seguir por onde você não seguiria naturalmente.

Todos os nervos ali presentes na região de sua boca e arredores são afetados pelos puxões levados a cabo no metal contra sua língua, e os cantos de sua boca. E sua língua e sua boca são órgãos naturalmente evoluídos apenas para deixar você se alimentar, lamber seus estimados companheiros ou companheiras, não para servir de meio de tortura pelo qual forçam você a aprender a fazer os tais passos de uma dança que serve bem ao propósito de quem monta em você, mas em nada serve aos propósitos de seu espírito equino, nascido para dançar e voar livre pelos prados afora, sem ferros atravessando sua boca.

equitacao-tecnica-ou-exercicio-de-andar-a-cavalo-bridão-freios-ferros-boca-cavalo-bridões

Enfim, não há boca de animal algum nesse planeta que seja tão violentada pela mão humana quanto a de um cavalo usado para montaria. Quem achar que eu estou inventando, estude, por favor, um pouco mais de anatomia, fisiologia e psicologia de animais torturados pela equitação. Um bom começo é o livro Equestrian sport: secrets of the “Art”, de Nevzorov Haute Ecole. Depois conversamos sobre a beleza da prática da equitação.

Na “arte” esconde-se uma imensa violência. Quem não quer ver o que faz ao animal, deveria passar um dia de sua vida sendo guiado por um freio atravessando sua língua e pressionando a pele dos cantos de sua boca, a cada vez que um montador quisesse fazer o seu corpo seguir mais veloz, menos veloz, para a direita, para a esquerda, recuar. Recuar da prática da equitação é o mínimo que se deveria fazer em respeito aos cavalos. A única arte que ali existe é a de esconder a verdade de sua dolorosa performance.

E olha que só falei do freio. Mas tem muito mais. E tudo escondido. Bem escondido. Do público, que na velocidade não pode ler a expressão de medo do animal, e do montador, que, ficando atrás dos olhos e da boca do cavalo, jamais vê as contrações de dor em sua boca e a expressão de pavor em seus olhos. Mas as fotos tiradas por quem estuda tudo isso a sério não permitem mais a enganação geral.

 

Sônia T. Felipe, doutora em Teoria Política e Filosofia Moral pela Universidade de Konstanz, Alemanha (1991), fundadora do Núcleo de Estudos Interdisciplinares sobre a Violência (UFSC, 1993); voluntária do Centro de Direitos Humanos da Grande Florianópolis (1998-2001); pós-doutorado em Bioética – Ética Animal – Univ. de Lisboa (2001-2002).

Autora dos livros, Por uma questão de princípios: alcance e limites da ética de Peter Singer em defesa dos animais (Boiteux, 2003); Ética e experimentação animal: fundamentos abolicionistas (Edufsc, 2006); Galactolatria: mau deleite (Ecoânima, 2012); Passaporte para o Mundo dos Leites Veganos (Ecoânima, 2012); Colaboradora nas coletâneas, Direito à reprodução e à sexualidade: uma questão de ética e justiça (Lumen & Juris, 2010); Visão abolicionista: Ética e Direitos Animais (ANDA, 2010); A dignidade da vida e os direitos fundamentais para além dos humanos (Fórum, 2008); Instrumento animal (Canal 6, 2008); O utilitarismo em foco (Edufsc, 2008); Éticas e políticas ambientais (Lisboa, 2004); Tendências da ética contemporânea (Vozes, 2000).

Cofundadora da Sociedade Vegana (no Brasil); colunista da ANDA (Questão de Ética) www.anda.jor.br. Coordena o projeto: Ecoanimalismo feminista, contribuições para a superação da discriminação e violência (UFSC, 2008-2014).

Foi professora, pesquisadora e orientadora do Programa Interdisciplinar de Doutorado em Ciências Humanas e do Curso de Pós-graduação em Filosofia (UFSC, 1979-2008). É terapeuta Ayurvédica, direcionando seus estudos para a dieta vegana.

Facebook 

Deixe uma resposta