Escrito em por
Artigos, Artigos sobre Direitos Humanos.

EU NÃO CONCORDO COM A HOMOSSEXUALIDADE!

Sobre o que exatamente vocês não concordam? A primeira questão a ser colocada é: Só é possível falar em termos de concordância e discordância de uma espécie de coisa – as ideias. Concordar ou não concordar é a ação de autorizar ou desautorizar uma ideia e suas implicações. Ideias são conceitos ou percepções conceitualizadas do mundo. Toda ideia é criação humana, e nenhuma ideia é inata ou “instalada” em nossa consciência. Nossa visão de mundo, a motivação de nossas escolhas, nossa oposição a algo ou alguém, etc. Todas são ideias, todas são criadas pela mente humana. Essa criação pode ser sua, ou de alguém que a compartilhou com você.

A possibilidade de concordar ou discordar da homossexualidade só tem sentido (leia-se lógica) se esta for uma ideia. Quem teve a ideia de ser gay? Não me parece que a homossexualidade seja uma ideia, e sua prática seja a aplicação de uma teoria. Parece-me mais lógico que a homossexualidade seja um fato.

Fatos são fenômenos capazes de serem reconhecidos por um grupo de pessoas. Uma coisa é um fato quando, indiferentemente de ser amplamente conhecido ou não, é inegável que existe e que sua existência afeta a um grupo ou a todas as pessoas.

A diferença entre um fato e uma ideia é que os fatos são inegáveis, eles existem independentemente da nossa vontade. O Sol é um fato, a chuva é um fato, a cegueira em um deficiente visual é um fato, o sexo masculino do bebê que possui cromossomos XY é um fato. Já uma ideia é cabível de ser negada. Algo como “as pessoas mais ricas são mais felizes” é uma ideia, e não um fato. Para ser um fato, teria de ser inquestionável e não me parece que todas as pessoas ricas sejam felizes. Outro exemplo: “Veganos tem saúde mais frágil do que onívoros”. Também é uma afirmação questionável.

Alguém pode pensar que pessoas ricas são mais felizes e que veganos tem saúde mais frágil, porém o pensamento desta pessoa não torna suas ideias em fatos. A observação dos fatos pode conduzir a uma ideia verdadeira a respeito deles, e não o contrário. A realidade empírica do universo não é dada pelo que pensamos sobre ela. Ela existe independentemente de nós pensarmos e se pensarmos nela.

Da mesma maneira que os exemplos acima, alguém pode pensar: “A homossexualidade é ruim, pois é antinatural. Não posso concordar com algo que seja antinatural”. Este pensamento é uma ideia, mas não é um fato. É um juízo de valor. Diante deste tipo de colocação devemos nos questionar: O que é natural?

Natural é aquilo que é dado pela natureza. Natural é tudo aquilo que existe sem intervenção antrópica (isto é, sem intervenção humana). Podemos dizer que a água e morangos são naturais, mas o suco de morango é sempre artificial, na medida em que houve uma intervenção humana para unir e misturar os elementos naturais. Quando alguém diz que a homossexualidade é antinatural, está dizendo que é algo criado ou modificado pelo humano.

Tal “argumento” parte do pressuposto de que o humano possui uma natureza e que esta é fixa e imutável; e colocado em comparação com os outros seres vivos é acusado de “desvirtuar-se” desta própria natureza, o que ocasionaria todo tipo de desgraça e colocaria a própria existência da espécie em risco.

Em tal defesa da “natureza humana” podemos encontrar diversas falhas, das quais comentarei as mais evidentes:

Em primeiro lugar, em se tratando da natureza dos outros seres vivos, principalmente dos outros animais, a literatura científica já acusa níveis diferenciados de consciência em diferentes espécies. O instinto, espécie de inteligência intrínseca em todas as espécies, não pode ser definido universalmente como se fosse apenas um para todas elas. Nas espécies mais biologicamente primitivas o apelo do instinto é quase dominante, e tende a ser cada vez menor conforme a complexidade de cada espécie em questão. Nas espécies biologicamente mais próximas do ser humano, são impressionantes as demonstrações de inteligência, escolha, percepção e inclusive de regulação social e emotividade. Já existem estudos especializados na ocorrência de depressão entre símios, de manifestações de luto entre bovinos, de hierarquias sociais complexas entre cães, etc. De acordo com estes dados, que são fatos (e não ideias), por tanto não podem ser negados; é extremamente complicado afirmar sobre “a natureza” como um conceito universalmente igual. Tampouco o recurso a outro conceito como “o instinto” resolve a querela, uma vez que é preciso especificar sobre qual objeto a ideia se aplica: a natureza de quem? O instinto de qual animal?

Não bastasse ser falacioso recorrer a um conceito universal para fatos que são complexamente particulares e específicos, é ainda um agravante quando a discussão gira em torno da natureza de uma espécie específica: a humana.

Não obstante o instinto tenha um apelo diferenciado em cada espécie em questão, no humano existe um fator complicador: a cultura. Em nós, o desenvolvimento biológico é acrescido e modificado de acordo com a artificialização da vida. Nos humanos existem instintos que, via de regra, não são “fortes” o suficiente para subjugar os mecanismos racionais intrínsecos a nossa espécie.

Trocando em miúdos, o que nos diferencia em absoluto das outras espécies é o fato (e não a ideia) de que nossa “natureza” é socialmente construída. Se nós não podemos falar em geral sobre “a natureza”, podemos falar menos ainda sobre a “natureza humana”; pois nossa capacidade racional que impera sobre nossos instintos nos faz oscilar historicamente sobre o que pensamos ser a nossa “natureza” através da pergunta filosófica mais antiga: “Quem somos nós?”. A esta pergunta perene, as respostas são datadas e localizadas historicamente. Cada sociedade humana, em cada estágio de desenvolvimento, deu a sua própria resposta que satisfez até um determinado ponto, em que a pergunta teve de ser recolocada e respondida novamente. É assim que marchamos. É assim que a nossa espécie lida com suas questões ontológicas.

Resumindo: Só se pode falar de natureza humana em caráter metafórico, pois como vimos no início do texto, só é natural o que não tem intervenção antrópica. E como o próprio humano pode ser algo sem intervenção antrópica? Em absoluto: não existe natureza humana.

Em segundo lugar, vamos fazer uma suposição hipotética de que – como querem os defensores da “natureza humana” – ela exista e seja um fato, e não uma ideia. Não precisamos esboçar qual seria nossa natureza, apenas reconhecer sua existência. Agora suponhamos que estamos verificando se a natureza humana é heterossexual, e para isso, recorremos às outras espécies, pois entendemos que toda natureza animal compartilha das mesmas bases.

Em nossa pesquisa, descobriríamos que: relações homoafetivas e homoeróticas são identificadas em mais de 1.500 espécies de animais ; e que não obstante, o ato sexual em diversas espécies não é apenas para fins reprodutivos. Não seria um choque? De qualquer maneira, o argumento de que a natureza humana é heterossexual cairia. Também cairia a hipótese de que a atividade sexual deve visar à reprodução sempre.

Resumindo: Ainda que a tal “natureza humana” existisse como um fato, e não como uma ideia, ainda assim ela não seria heteronormativa, e tampouco se resumiria ao fim único da reprodução.

Para finalizar, que fique estabelecida a distinção entre “homossexualismo” e homossexualidade: A Homossexualidade é um fato, e como todo fato, inquestionável e real. O “homossexualismo” é uma ideia, e como toda ideia, pode ser questionada. Uma ideia que parte da observação criteriosa dos fatos é uma ideia verdadeira, uma ideia que parte da má compreensão dos fatos, ou da imposição de juízos de valores – e como qualquer juízo de valor, arbitrário – aos fatos, é uma ideia falsa. A Homossexualidade existe, e é uma das possibilidades existenciais que os humanos compartilham com diversas espécies de animais. Este é um juízo de fato. O “Homossexualismo” é um juízo de valor, e só existe enquanto ideia, e enquanto ideia que não é corroborada pelos fatos em que tenta se escorar, é uma ideia falsa.

Quando alguém diz que não concorda com a homossexualidade, está dizendo algo como “Eu não concordo com a luz do sol” ou “eu não concordo com o céu azul”. Quando alguém diz que não concorda com as práticas homossexuais, está dizendo algo como “Eu não concordo que o sol ilumine as coisas”. Quando alguém diz que não concorda com o homossexualismo, está dizendo algo como: “Eu não concordo com bolas quadradas”. Pois como vimos, o “homossexualismo” é uma ideia falsa, só existe enquanto pré-conceito, enquanto discriminação, enquanto discurso vazio.

Diego Gatto é bacharel e professor de filosofia da rede estadual (formado na PUC-Campinas/PUC-SP), ativista e vegano, e anarquista. Milita em movimentos de gênero e e abolicionismo animal.

Escreve regularmente no blog Fagocitando São Paulo (http://fagocitandosp.blogspot.com) e no blog  Centro do Socialismo (http://www.centrodosocialismo.com.br).

Referências:
¹Os livros “Libertação Animal” de Peter Singer e “Comer Animais” de Jonathan SafranFoerer possuem uma extensa bibliografia destas pesquisas referidas.
²Ver a pesquisa do biólogo Bruce Bagemihl (1999), em que o comportamento homossexual já foi observado em cerca de 1.500 espécies animais, variando de primatas a vermes intestinais.Bruce Bagemihl, Biological Exuberance: Animal Homosexuality and Natural Diversity, St. Martin’s Press, 1999; ISBN 0312192398
Este é outro ponto estudado na pesquisa de Bagemihl.

Formou-se em Filosofia pelas Pontifícias Universidades Católicas de Campinas e São Paulo, é vegano e anarquista.

Deixe uma resposta