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Artigo dedicado aos “vegetarianos” que consomem ovos da galinha e leite do bezerro

Uma das coisas que mais me surpreende no universo dos direitos animais, e seus defensores, é como ainda se vê, entre vegetarianos, especialmente os que conhecem a realidade da pecuária, quem defenda ou não veja problemas no consumo e produção de leite e ovos, e que hesite tanto antes de aderir definitivamente ao Vegetarianismo.

Eu só encontro uma justificativa aparente para isso: as pessoas não vêem essa produção como tão cruel como a de carne, por teoricamente – e apenas teoricamente – não envolver morte. No entanto, é fácil demonstrar que a realidade é muito mais complexa – e terrível – do que parece.

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Foto por EligeVeganismo.

A primeira questão que gostaria de ressaltar é que o consumo de leite é muito mais antinatural que o consumo de carne. Segundo os biólogos, o ser humano evoluiu comendo carne. Na natureza, onde a alimentação é incerta, isso lhe possibilitou encontrar nutrientes concentrados importantes numa época em que não se sabia quando viria a próxima refeição. Além das vantagens que isso trouxe ao indivíduo, beneficiou também o desenvolvimento das coletividades, que puderam prosperar, crescer.

O consumo de leite veio muito depois, quando o homem descobriu que, em vez de caçar, ele podia criar suas vítimas. Daí a vaca estava lá, prontinha pra ser comida – por que não tirar o leite dela primeiro? Ora, é possível comer carne de um animal livre. Tomar seu leite, nunca. “Experimentem” ordenhar um mamífero selvagem. Vocês vão descobrir que é mais fácil (e lógico) matá-lo e comer sua carcaça.

Com essa argumentação não estou defendendo o consumo de carne. Com a sedentarização e a agricultura, ela é totalmente desnecessária. Eu estou, sim, criticando o consumo de leite. Enquanto ordenharmos as vacas, elas nunca poderão ser livres, e esse é, na verdade, o ponto principal.

Isso vale também para os ovos. Na natureza era possível colher ovos de aves. Bastava espreitar seus ninhos. Estes eram ovos fecundados. Os ovos que “todos” consumimos são ovos não fecundados. E para obtê-los, novamente, precisamos de animais domesticados – criados em cativeiro. “Cativo” é outra palavra para seres que são propriedade, que são escravos. Escravos são seres cuja existência é dependente de outro ser para o qual trabalham. É a condição à qual reduzimos vacas e galinhas. Mas voltando aos ovos… Ora, para a galinha dar ovos não fecundados ela não pode ter relações sexuais. Isso significa: nenhum galo por perto.

A vaca tem o problema oposto: tem que estar sempre prenhe.

Vidas totalmente dependentes e artificiais. Mesmo que sejam criadas “soltas”, elas continuam reduzidas à condição de coisas. De máquinas de dar ovos e leite.

A realidade das galinhas de granja e vacas de fazenda é mórbida: confinamento, mutilação, hormônios para aumentar a produção, antibióticos e posterior assassinato. Alguém duvida de que essa linha de produção é ainda mais cruel que a da carne pura e simples? Seja por causa dos hormônios ou devido à manipulação genética, uma vaca é forçada a produzir artificialmente muito mais leite do que produziria naturalmente. Isso é doloroso. Imaginem uma mulher tendo que dar 12 vezes mais leite do que é capaz: ela ficaria com os seios inchados, teria risco de infecções, teria dores na hora em que fosse “ordenhada”.

Agora imaginem que se faça isso sistematicamente com uma mulher, ano após ano. É o que acontece com a vaca – mesmo a que pasta solta. Por isso os bem-estaristas alegam que a vaca precisa ser ordenhada, senão morre – mas se o ser humano cometeu o erro de modificá-la em prejuízo dela mesma, isso serve de licença para o ser humano de hoje persistir no erro? Existe mesmo alguma justificativa para isso?

Para concluir, o “argumento” definitivo dos ovolactovegetarianos e bem-estaristas: podemos ter leite e ovos sem matar vacas e galinhas. Se você continua achando que podemos ser bons senhores sem matar nossos escravos, eu quero dizer que matar é, sim, parte necessária do processo.

Hoje somos mais de 6 bilhões de pessoas. No mundo ocidental, o consumo de carne, leite e ovos é gigantesco. Para atender a essa demanda a produção tem de ser em escala industrial. A produção industrial não comporta o bem-estarismo.

Explico. Basta tentar estimar quantos litros de leite e dúzias de ovos se vêem nos supermercados. Todos abarrotados de leite e ovos, de norte a sul do país, e no mundo inteiro. Milhões de toneladas de leite e ovos. Para termos tanto leite e ovos, precisamos de muitas vacas e galinhas. Para que a humanidade os tenha nessa quantidade absurda, vacas e galinhas, além de ser entupidas de hormônios e geneticamente manipuladas, precisam ser confinadas, para que caibam mais delas em menos espaço. Imaginem o efeito que os hormônios, o estresse, os antibióticos fazem no seu organismo. Será que elas levam uma vida saudável?

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Não levam. E elas não conseguem levar esse “estilo” de vida adiante por muito tempo. Vacas não são capazes de produzir leite 12 vezes mais do que seu organismo fabrica naturalmente por toda a sua vida fértil. O mesmo vale para a quantidade de ovos que as galinhas são forçadas a pôr. Alguém acha que o produtor iria mantê-las vivas por mais 10, 15 anos, depois que não produzissem mais, ou sua produção caísse, sabendo que aquele espaço (ínfimo) que elas ocupam é necessário para obter o leite de outra vaca, e os ovos de outra galinha, ainda férteis?

É por isso que, embora uma vaca possa viver mais de 20 anos, e uma galinha, mais de 10, elas são mortas muito antes disso: cerca de 4 anos, no caso das vacas; cerca de um ano e meio, no caso das galinhas. Mesmo que elas pudessem morrer “naturalmente”, o mais provável é que elas não sobrevivessem ao processo. E, se sobrevivessem, teriam uma existência miserável. A demanda nunca acaba.

Além disso, para termos uma nova geração de galinhas, precisamos fecundar os ovos às vezes. Temos mais galinhas do que galos… Alguém imagina o que acontece com os pintos machos, que como os bezerros machos não valem nada para o produtor?

Se há alguém que não sabe a resposta, eu a antecipo: bezerros e pintos machos são descartados, isto é: mortos o mais rapidamente possível. Os pintos são triturados vivos e vão parar na ração de animais domésticos. Os bezerros machos podem ser mortos ao nascer: estes são os ‘sortudos’. Os azarados irão viver 4 meses em confinamento, no escuro, amarrados, para não desenvolver músculos, e propositadamente subnutridos, para que da sua anemia e fraqueza o ser humano obtenha a carne macia, clara e de baixa gordura conhecida como carne de vitela.

Mesmo que o mundo fosse ovolacto, as vacas e galinhas continuariam sendo mortas – como é morta a maioria das vacas e galinhas criadas soltas hoje. A única outra saída que eu encontraria para que elas tivessem uma vida mais longa seria se o consumo reduzisse drasticamente, a ponto de leite e ovos serem luxos a ser consumidos em datas e ocasiões especiais. Mas, ainda assim, elas seriam escravas. E ainda haveria o dilema do que fazer com os machos – se não vamos comê-los, para onde eles irão?

A solução mais lógica e racional é o veganismo. Ser ovolacto não basta, se você acredita que os animais merecem respeito.

Mas então por que ainda existem tantos ovolactos?

Claro, ainda existem aqueles desinformados a quem escapa a realidade da produção de laticínios e ovos. Mas por experiência própria, como ativista, sei que muitos ovolactos conhecem essa realidade, mas relutam e criam justificativas para não aderir ao veganismo.

Infelizmente, eu só posso deduzir uma resposta que explique essa situação.

A maioria dos ovolactos, antes de respeitar os animais, têm natural repulsa pela carne, o que é explicável: é carcaça em decomposição, sanguinolenta e malcheirosa. Isso é ótimo para se dar o primeiro passo. Mas é insuficiente para dar o passo definitivo. Alimentos “disfarçados”, como gelatina, leite e ovos, ou alimentos que levam estes ingredientes são bem tolerados por terem uma aparência menos (ou nada) repulsiva.

As pessoas que se dizem ovolacto”vegetarianas” pelos animais, mas não conseguem aderir ao veganismo, pelo jeito, têm mais repulsa aos animais mortos do que respeito pelos animais vivos…

• Para saber mais sobre Veganismo & Direitos Animais, acesse: www.SejaVegan.com.br.

Bruno Müller

Historiador, doutor em História das Relações Internacionais pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Membro da Sociedade Vegana. Co-editor e colaborador da Revista Eletrônica de Direitos Animais Pensata Animal. Vegano e ativista independente desde 2007, ministra palestras e faz ações de conscientização em prol do veganismo e direitos animais na cidade do Rio de Janeiro.

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