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‘Esquizofrenia moral’ na mídia: análise de um caso nada isolado

O índice da edição de julho de uma famosa revista brasileira anuncia a matéria que chama minha atenção de cara: “Requinte selvagem – A tortura e a escravidão de animais na Ásia”. Vou direto à página indicada conferir. São quatro páginas com pouco texto e muito destaque para as fotos (de Patrick Brown) em preto-e-branco, que dão mais dramaticidade às imagens e remetem a algo antiquado, costumes ultrapassados – #sóquenão.

Das sete imagens que compõe a matéria, é provável que todas causem repulsa nos leitores, e algum sentimento de compaixão pelos animais retratados.

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A primeira e maior fotografia mostra um elefante de 50 anos acorrentado, no Nepal. Em seguida, vemos um urso imobilizado para ter sua bile extraída, no Vietnã. Abaixo, duas imagens menores mostram a pele arrancada de um tigre que devia ser grande, a pele de outro animal também de grande porte, o crânio de um rinoceronte e um carregamento de pangolins interceptado em um aeroporto na Tailândia. As últimas três imagens mostram, respectivamente, uma enorme cobra explorada para adornar fotografias enquanto não é vendida como mercadoria no Mianmar, uma tartaruga ‘sendo preparada’ em um restaurante no Vietnã e um prato com sangue, bile e coração de cobra.

“Para satisfazer luxos humanos, animais selvagens são escravizados e torturados na Ásia”, lê-se no texto em destaque na abertura da matéria. Outro trecho chama a atenção para uma tremenda catástrofe promovida por seres humanos no continente asiático: 30 mil primatas, 5 milhões de aves, 10 milhões de répteis e 500 milhões de peixes são traficados a cada ano. Os animais são servidos nos restaurantes, vendidos em lojas de medicina alternativa e sex shops. O mercado, segundo a reportagem, movimenta mais de 18 bilhões por ano.

Agora que já apontamos o dedo para toda crueldade cometida contra animais selvagens vítimas do tráfico na Ásia, olhemos para o nosso próprio umbigo. Em 2012 foram assassinados – em números oficiais – só aqui neste pedaço do continente sul-americano chamado Brasil 211,279 milhões de bovinos, 38,796 milhões de suínos e 1,245 bilhão de galináceos. (Produção da Pecuária Municipal, Rio de Janeiro, v. 40, 2012). Se compararmos a quantidade de bovinos, suínos e galináceos que o agronegócio brasileiro condena à escravidão todos os anos aos números apresentados sobre o tráfico de animais selvagens em todo continente asiático, com certeza estaremos muito à frente.

Mas a intenção aqui não é comparar os números, para depois apontar que somos os mais cruéis. Acima de tudo é preciso reconhecer que cada um desses animais é um indivíduo dotado do direito de não ser tratado como propriedade. Assim, todos eles são igualmente vítimas, independente de quem os explora, onde ou por qual motivo o faz.

Há quem morra de dó dos animais “selvagens” escravizados e traficados, porque eles são retirados da natureza, mas não se comova com os animais “de criação”, alegando que esses são criados por nós e para nós. Um dos problemas desse argumento é que animais “selvagens”, “silvestres”, “de criação”, etc. não existem. São classificações humanas baseadas em nossos próprios interesses sobre eles.

Na prática, animais são animais, sencientes como nós. A galinha, o porco e a vaca querem e têm tanto direito à liberdade quanto o elefante, o pangolim, a cobra, a tartaruga, o tigre, o rinoceronte… A escravidão, definida como antônimo de liberdade, é um sofrimento para todos eles, não importa em qual categoria os classifiquemos, nem se o animal já nasce prisioneiro ou é aprisionado em algum momento de sua vida.

Isto é a esquizofrenia moral (ver Gary Francione): escolher alguns animais para proteger e outros para escravizar. A matéria que denuncia animais escravizados e torturados na Ásia em destaque em uma revista brasileira é um sintoma desta esquizofrenia.

“Vejam só que absurdo o que fazem com os animais naquele continente”, diz o leitor esquizofrênico moral, enquanto mastiga mais um pedaço de um animal morto. A chave para a cura desta doença está na filosofia e na base moral da postura dos direitos animais, o VEGANISMO.

www.SejaVegan.com.br

Ciclista, editora do site de notícias “InforMarUbatuba.com” e jornalista do Portal Veganismo.

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