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Veganismo, assim como outras lutas, é uma tentativa de não-participação na exploração!

Percebemos uma resistência, vinda de pessoas do movimento libertário, ao vegetarianismo ou veganismo, que advém, em minha percepção, principalmente de dois preconceitos: do veganismo enquanto privação pessoal (cerceamento de uma liberdade de se desfrutar do que quiser); e do veganismo como movimento elitista ou de classe média.

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Quanto ao primeiro preconceito, é compreensível que ele exista, quando muitos teóricos ou ativistas relacionam o veganismo a uma atitude/escolha pessoal, seja de evolução espiritual de um modo geral, preocupação com a saúde, ou um jejum aos moldes de privação cristã como Tolstoi coloca (inicialmente) em seu ensaio[i] sobre o vegetarianismo. Em contraponto, o próprio Tolstoi vai defender que a verdadeira opressão de liberdade é forçar as pessoas (em sua explanação, os funcionários de matadouro) a viverem da morte de outros seres, pois que isso seria uma privação da mais alta capacidade do espírito, que é sentir empatia e pena por seu semelhante. Mas a questão ainda não é nada disso.

Quanto ao segundo preconceito, do veganismo enquanto movimento elitista de classe média, no geral é uma crítica ao caráter consumista: a insistência em se enxergar o veganismo como uma mudança nos hábitos de consumo, que pode não ser acessível para grande parcela da população por falta de informação e de dinheiro, além de manter o foco na questão do consumo, que é essencialmente capitalista. Podemos remeter também a um fator histórico, considerando que esse preconceito é consequência do fato de que a “defesa dos animais” começou a partir da burguesia que procurava assegurar seus bens, os animais, enquanto propriedade.[ii] É fato também que os “classe-média” continuam em destaque no movimento, vendendo produtos caros e colaborando para transformar o veganismo num nicho de mercado. Um fator importante a ser ressaltado, contudo, é que as pessoas que deveriam estar lutando por justiça e liberdade excluem os animais da equação, colaborando para manter o movimento elitizado.

Proponho que deixemos essas considerações de lado, por enquanto, para entender o que realmente importa – o foco do movimento: os animais. Nós lutamos contra uma cultura de opressão baseada no especismo, que é a exclusão dos animais do círculo de consideração moral simplesmente por serem de outra espécie. Ela opera da mesma forma que outras opressões: machismo, classismo, racismo…a partir de uma dicotomia nós-eles arbitrária.[iii]. Nesse sentido, em Futuro Primitivo, o anarquista Zerzan vai sugerir que a domesticação, tanto dos animais quanto da natureza, é inclusive a origem de todas as opressões[iv].

Aristóteles, Descartes, Hegel, Kant, defendiam, a rigor, que os animais são mais semelhantes às máquinas do que a nós. Atualmente essa noção é cada vez mais refutada, até pela crescente produção científica nessa área. Admitimos, no mínimo, que os animais sentem dor. Quem já dedicou algum tempo a isso, sabe que sentem medo, angústia, prazer, alegria… Quão grosseiro é, então, recusarmos agora considerar seus direitos dentro de nossas lutas? Qual a justificativa? A única que eu ouço é a racionalidade, que é tão arbitrária quanto gênero, cor de pele… a racionalidade, nos termos que a gente a entende, existe para os seres humanos como apenas mais uma característica; por que a característica mais importante, indicadora de supremacia, não seria, por exemplo, voar? A nossa racionalidade nos possibilita a subjulgação de outros. A capacidade de oprimir é justificativa suficiente para a opressão?

Reclus tem também um ensaio sobre vegetarianismo, que é bem-estarista, mas que apresenta uma teoria interessante para investigarmos essa nossa indiferença: ele defende que somos educados como especistas, sob a mesma lógica alienante de tantos outros valores; que os animais são, para isso, descaracterizados enquanto indivíduos, tornando-se carne; eles não passam de “formas geométricas no pasto”[v]; ideia essa que vai aparecer novamente em Carol Adams, relacionando o especismo ao machismo, quando a autora mostra um processo análogo na descaracterização/objetificação da mulher, a medida que essa se torna peito, bunda, pernas.[vi]

Retomando, qual característica que deve ser levada em conta para reconhecer um detentor de direitos? Sugerimos que a senciência é que deve ser levada em consideração, a qual consiste na capacidade de ter uma compreensão subjetiva da própria existência, sentir anseios, alegrias, medo, frio, dor; capacidades consequentes de se possuir um sistema nervoso central. Os animais sencientes têm interesses próprios, e devem ter direito a viver em nome deles, e não pelos interesses de outros. Devem ter resguardados seus direitos fundamentais à vida, liberdade, integridade física e psíquica. Portanto, os animais devem viver para correr em paz, não-fazer-nada em paz, buscar sua própria comida; no lugar de ter sua existência reduzida à um processo de engorda, ou a uma jaula, a torturas incessantes em laboratórios, a estupros regulares para engravidar e ter seus filhotes afastados para ter seu leite roubado[vii], ou botando ovos incessantemente por seus 2 anos de ‘vida’ [viii].

Não que o modo como é feito, que na lógica industrial de produção em massa é inevitavelmente cruel, seja o problema. O problema essencial é os animais serem tidos como propriedades de outros. Com essa relação, eles jamais podem ter seus interesses resguardados, uma vez que o proprietário sempre terá seus próprios interesses em primeiro lugar, especialmente se esses entrarem em conflito com o de sua propriedade. Francione, que ataca com destaque o status de propriedade dos animais em sua obra, coloca que as pessoas de modo geral aceitam que isso é errado moralmente, e só precisamos passar a ser coerentes em nossas atitudes.

Quem também vai sugerir uma adequação pessoal a partir de pressupostos morais é Tolstoi, no ensaio já citado. Ele concebe que o vegetarianismo, enquanto não-participação na exploração de animais, deve ser assumido assim como a não-participação em outras formas de opressão, para uma vida guiada moralmente.

Bom, a conclusão de tudo isso é que pretendemos mostrar que o movimento vegano enquanto recusa a consumir produtos de origem animal não é uma limitação da nossa própria liberdade, e sim um reflexo de uma compreensão ética da nossa relação com outros animais. Ninguém diria que não-violentar uma mulher é cercear a liberdade do violentador. Ir à raiz do problema é admitir que todos que tem interesses devem ter seus interesses respeitados, do contrário estaremos lutando por minorias eternamente. Creio que os movimentos libertários têm em comum a luta pelo indivíduo, e por isso propomos o reconhecimento do animal como indivíduo. Um modo de vida vegano, que significa excluir nossa participação na medida do possível [ix]da exploração animal, seria, portanto, uma adequação necessária a um modo de vida coerentemente libertário.

 

* O texto acima foi apresentado pelo VEDDAS|RN na Feira Libertária do Seridó, em sua segunda edição, novamente na cidade de Caicó, Rio Grande do Norte, de 02 a 04 de maio de 2014.

Na ocasião foi proposto uma roda de discussão a respeito da importância dos Direitos Animais serem abarcados pelos movimentos libertários. O texto serviu de provocação, guia de estudo, ou ao menos para reflexão.

 

Referências:
[i]O Primeiro Degrau, Tolstoy
[ii] Anna E.Charlton, Sue Coe & Gary Francione, The American Left Should Support Animal Rights: A Manifesto
[iii]Libertação Animal e Revolução Social, Brian A. Dominik (discordia.no.sapo.pt/veganarchy.pdf)
[iv] “A agricultura possibilita o nascimento desmedido da divisão do trabalho, cria os fundamentos materiais da hierarquia social e inicia a destruição ambiental. Os sacerdotes, os reis e o trabalho obrigatório, a desigualdade sexual, as guerras
são algumas das conseqüências específicas imediatas (Ehrenberg 1986b, Wymer
1981, Festinger 1983).” Futuro Primitivo, John Zerzan
[v] Élisée Reclus sobre vegetarianismo
[vi] A Política Sexual da Carne, Carol Adams

[vii] Dica: Os órfãos do leite:

[viii] Dica: http://www.anda.jor.br/06/06/2011/a-dor-nos-pes-da-galinha
[ix] Aqui tentamos esclarecer um dilema constante. Assim como não conseguimos nos isentar de todas as explorações que são intrínsecas à vida nessa sociedade, temos consciência de que não podemos nos isentar de tudo que seja relacionado à exploração dos animais, mas o veganismo se coloca como uma tentativa, assim como todas as outras formas de não-participação a medida que se vive em sociedade.

Paula é professora, estudante, vegana, anarquista, feminista, ativista pelos direitos animais.

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