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Artigos sobre Direitos Animais, Vale do Paraíba.

“Pergunte ao pó”, de John Fante, não é um livro exemplar em relação aos direitos animais. A obra nem pretende tratar do assunto, mas a narrativa brilhante de Fante sobre o mal-estar de Arturo Bandini frente ao assassinato de um bezerro é um belo exemplo sobre o potencial que a literatura tem de nos fazer refletir sobre questões éticas e filosóficas.

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Umas cinco ou seis pessoas já haviam me indicado a leitura de “Pergunte ao pó”, de John Fante – e de outras obras dele também. Alguns anos se passaram desde então, e outros livros apareceram no meu caminho, acabei deixando para depois e confesso que por um bom tempo me esqueci completamente de Fante. Eis que, pouco antes do carnaval, passo pelo bazar dos animais em Ubatuba (SP) e lá está um exemplar de “Pergunte ao pó”, quase novo. Por apenas 1 real, compro o livro e ajudo os animais? Levei pra casa e comecei a ler imediatamente! É um livro excelente, a narrativa de Fante é realmente brilhante, me arrependo por não ter conhecido antes. Mas a grande surpresa de “Pergunte ao pó”, o que me interessa contar aqui, chegou no capítulo treze, quando Arturo Bandini, o personagem central do livro (um escritor em crise produtiva), sai com seu vizinho Hellfrick em busca de um ‘bife’.


Bandini se refere à Hellfrick como “o comedor de carne”, e conta que sua loucura por carne estava se agravando. “O dia inteiro eu o ouvia fritanto bifes baratos, o odor rastejando por debaixo da minha porta.”. É quando Bandini entrega seu gosto por carne. “Aquilo me dava um desejo maluco de carne.(…) Dia após dia eu trabalhava com o odor torturante de costeletas de porco fritas, bifes grelhados, bifes fritos, bifes à milanesa, fígado acebolado e todo tipo de carnes.”. Hellfrick, além de ser louco por carnes, gostava de beber e era do tipo que se excedia. Bandini conta que um dia Hellfrick estava deprimido e com a cabeça estourando de ressaca. Acabado, o vizinho entra no quarto de Bandini e senta-se na cama. “Falava de caça de coelho, de pescaria, (…) começou então com o assunto da carne.”. A carne é a droga de Hellfrick, que aje como um viciado. Ele pergunta para Bandini: “Gostaria de um bife grande e grosso? (…) Grosso assim. Grelhado. Um monte de manteiga por cima. Queimado apenas o suficiente para dar um travo. Gostaria de um bife assim?”, e Bandini responde que adoraria. Sem pensar duas vezes, Hellfrick se levanta e diz: “Vamos atrás de um bife.”. É noite, eles saem sem dinheiro, Hellfrick diz que sabe onde podem encontrar um bife mesmo sem grana. Ele pára o carro próximo a um pasto, sai com uma ferramenta na mão, passa por baixo de uma falha no arame farpado e chega a um celeiro.

“Então descobri o que ia fazer. Saltei do carro e gritei para ele. Mandou-me silenciar, raivoso. Eu o vi seguir na ponta dos pés em direção da porta do celeiro. Eu o xinguei e esperei tenso. Logo ouvi o mugido de uma vaca. Era um grito que dava pena. Ouvi então um baque e um arrastar de cascos. Pela porta do celeiro, veio Hellfrick. Sobre o ombro, carregava uma massa escura, que o fazia vergar. Atrás dele, mugindo sem parar, vinha uma vaca. Hellfrick tentou correr, mas a massa escura o limitava a uma marcha rápida. E a vaca ainda o perseguia, enfiando o focinho nas suas costas. Virou-se, chutando violentamente. A vaca parou, olhou em direção do celeiro, e mugiu de novo.”

Impressionado com a cena, Bandini xinga o vizinho de imbecil e desgraçado. Ele responde apenas pedindo-lhe ajuda. Apesar do espanto, Bandini ergue o arame farpado para que Hellfrick saia da fazenda carregando a vítima.

“Era um bezerro, o sangue jorrando de um talho entre as orelhas. Os olhos do bezerro estavam arregalados. Eu podia ver a lua refletida neles. Era assassinato a sangue frio. Fiquei enojado e horrorizado. Meu estômago revirou quando Hellfrick jogou o bezerro no banco traseiro. Ouvi o corpo desabar, depois a cabeça. Fiquei enojado, muito enojado. Era puro assassinato.”

A viagem de volta foi um verdadeiro terror para Bandini – e para o bezerro. Hellfrick tinha as calças, a camisa e os braços ensanguentados, mas estava feliz com o ‘bife’ que comeria e não se importava. Guiava o carro segurando em um volante pegajoso de sangue. Bandini conta que uma ou duas vezes ouviu o bezerro escoiceando no banco de trás. No percurso, ele tenta esquecer “o chamado melancólico da mãe do bezerro, o doce rosto do bezerro morto”. Eles avistam uma patrulha policial, Bandini tem certeza que serão parados e espera pelo pior. Quando passam ilesos, ele não consegue sentir alívio, pois os acontecimentos recentes ainda lhe causam um tremendo incômodo. Em seu pensamento, ele nos revela: “Uma coisa era certa: Hellfrick era um assassino, e estava tudo encerrado entre nós.”

Eles chegam ao prédio onde moram, embrulham o corpo do bezerro já morto em jornais e seguem em direção ao quarto de Hellfrick. Bandini olha para o pobre bezerro morto.

“Sua pele era malhada em preto e branco e tinha os tornozelos mais delicados. Da boca ligeiramente aberta, aparecia uma língua rosada. Fechei os olhos e saí correndo do quarto de Hellfrick e joguei-me no chão do meu quarto. Fiquei ali e estremeci, pensando na velha vaca sozinha no campo ao luar, a velha vaca mugindo pelo seu bezerro. Assassinato!”

Depois desta noite, Bandini diz que nunca mais visitou o quarto do vizinho, nem atendeu a porta quando ouvia seus chamados. Bandini não fala de forma sensível sobre animais nem antes nem após esta forte cena envolvendo a morte de um bezerro para servir de alimento, por puro vício e prazer. Diversas vezes no livro ele cita carne em suas refeições, entre outros produtos de origem animal. Há um momento em que o personagem sonha em ter muito dinheiro e comprar um cão de raça, um gato siamês e cavalos para agradar sua musa Camilla Lopez. Tudo isso demonstra sua total alienação quanto aos direitos animais, o singelo direito à vida. No penúltimo capítulo do livro, Bandini de fato compra em um canil um cão de raça, “de um branco puro, um collie”, por vinte e cinco dólares, para presentear Camilla. Ele não se inclina ao vegetarianismo mesmo se mostrando sensível ao caso do bezerro. Sua atitude é um reflexo do famoso (e controverso) ditado “o que os olhos não vêem, o coração não sente”. E me faz refletir sobre o abismo que existe entre a súbita comoção frente a uma cena chocante de crueldade contra animais, seja ao vivo, seja em um vídeo ou fotos, e a real mudança de atitude em relação ao consumo de produtos de origem animal, ao nosso consumo e comportamento em geral.

Bandini cortou relações com o vizinho por considerá-lo um assassino por ter matado o bezerro para comer seu almejado bife. Mas não cogitou cortar de seu cardápio produtos que advêm da mesma lógica cruel que ele presenciou naquela noite. Por que não?

O que difere a carne que uma pessoa compra “pronta” no supermercado, açougue ou restaurante do bezerro que Hellfrick assassinou? É que ao ver o músculo já esquartejado e embalado no isopor ou mesmo já carbonizado no prato, não vemos os olhos do bezerro. Também não ouvimos o mugido triste da mãe que vê seu filho sendo arrancado dela, violentado e assassinado.

Na verdade a indústria da carne também arranca filhos de suas mães, os violenta e os mata. E o faz isso aos milhares e com covardia e requintes de crueldade ainda maiores que o personagem de Fante.

Todo produto de origem animal que as pessoas compram e comem já foi um filhote como aquele assassinado por Hellfrick. Todos aqueles que se chocam ao ver uma cena de crueldade contra animais, mas não abandonam seus vícios alimentares especistas apresentam a mesma hipocrisia de Bandini. Ou será que deveríamos chamar tal comportamento de “esquizofrenia moral”?

Seja vegan, Bandini!

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* John Fante, estadunidense que escrevia como ninguém, partiu há 31 anos, em 1983. O livro “Pergunte ao pó” foi publicado em 1939, pela editora Black Sparrow Press. O exemplar que adquiri na feira dos animais de Ubatuba é a 5ª edição da José Olympio Editora, tradução de Roberto Muggiatti. O título original em inglês é ASK THE DUST (e não é sobre cocaína).

* Esquizofrenia Moral é uma condição reconhecida, o conceito foi cunhado pelo filósofo Gary Francione, que caracteriza um pensar confuso, enganado, iludido. Por um lado, dizemos que levamos os interesses dos animais a sério, por outro, continuamos tratando os animais como propriedade.

• Para saber mais informações sobre Direitos Animais e Veganismo, acesse: www.sejavegan.com.br

Ciclista, editora do site de notícias “InforMarUbatuba.com” e jornalista do Portal Veganismo.

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