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Entrevistamos o designer vegano (e ativista do CAMALEÃO) André Buika

…que usa o pseudônimo “Nazareno Guerrilha” para disponibilizar suas artes criativas na internet, para quem quiser espalhá-las por aí.
Saiba o que ele pensa sobre direitos animais, ativismo, arte e censura.

Buika criou a arte “Queijo não é fruta” para estampar camisetas do CAMALEÃO. Esta arte faz parte da série de conscientização com base na ironia. Em breve serão lançadas outras camisetas com arte desenvolvida pelo designer.

Buika criou a arte “Queijo não é fruta” para estampar camisetas do CAMALEÃO. Esta arte faz parte da série de conscientização com base na ironia chamada “Reino Vegetal”. Em breve serão lançadas outras camisetas com arte desenvolvida pelo designer.


CAMALEÃO: Na sua galeria de trabalhos, ou melhor dizendo, na galeria de “Nazareno Guerrilha”, percebe-se que você usa seu trabalho para divulgar diversas causas, não apenas direitos animais, o que é muito legal!
André Buika: É, na verdade, sobre os direitos animais eu ainda estou com a produção bem pequena. Ultimamente estou indo mais para o lado “subversivo” das lutas que se iniciaram em junho/julho passado. Sempre tive esse “q” de indignação por onde olho, e, por isso foi inevitável alcançar o veganismo.

CAMALEÃO: Em que ações de direitos animais você já se envolveu ou se envolve?
André Buika: O que eu mais fiz em relação aos direitos animais foi ciberativismo mesmo, desenvolvendo artes para protestos e/ou arte de rua e artes para a conscientização humana e também participei do Natal Vegano Solidário do ano passado.

CAMALEÃO: Conte mais sobre “Nazareno Guerrilha” e #ArteSubversivaParaTodos.
André Buika: Eu nasci em uma família católica. Minha mãe usa um cabresto que vai daqui até o vaticano (risos). Eu nasci, fui batizado, eu fiz primeira comunhão. Até os meus 15 anos de idade, eu era obrigado a ir à missa todos os domingos. Até que um dia desencanei de tudo. Hoje tenho minhas crenças, mas faço muitas críticas ao catolicismo, a essa religião que prega o falso moralismo. Um dia assisti à trilogia “Profecia”, na qual, em um dos filmes, o filho do diabo procura pela ressurreição de cristo, o nazareno. Sempre tive birra com Israel também, pela repressão sobre o povo palestino. Achei interessante o termo “nazareno”, então procurei imagens no Google como “santo guerrilheiro”. Achei a imagem que coloquei no meu avatar, e decidi escolher este nome pela ironia moralista católica, um santo guerrilheiro. Eu acredito em Jesus, não como dita a bíblia, mas sim como um Che Guevara dos tempos antigos. Jesus fora um ativista, que lutou e morreu pelo que acreditava. Decidi usar este nome também para manter um certo anonimato, tendo em vista o que me aconteceu com a “segurança pública de SP”. Mas brinquei com este anonimato mais pela ironia em si, pois sei que, se quiserem me rastrear, me pegar, isso é bem possível…

CAMALEÃO: Como surgiu o #ArteSubversivaParaTodos?
André Buika: Nasceu após eu ter sido intimado a dar um “esclarecimento” na Delegacia de Crimes Digitais de São Paulo (DIG-DEIC) pelo fato da FanPage “BlackBlocFaseII” ter compartilhado uma arte que eu fiz contra a fraudulência do metrô de SP. Desenvolvi e disponibilizei uma arte para adesivar plataformas e vagões do metrô.

*Leia depoimento de André sobre o caso no final do post

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Por causa deste arquivo, Buika perdeu o domínio do seu site e teve que prestar esclarecimentos na delegacia de crimes digitais de SP.

André Buika: Pelo fato dessa FanPage ter compartilhado a minha arte, a polícia entendeu que eu era do movimento BlackBloc (bela investigação a deles). Então eu fora intimado a “esclarecer” minhas atividades na web. Resumindo, perdi o domínio do meu site, onde eu disponibilizava em PDF (alta qualidade) as artes pra galera aplicar nas ruas. Então, criei uma conta em rede social, não fiz propaganda do tipo “baixa e faça” (como havia feito com a arte do metrô), e agora está lá, para todos serem SUBVERSIVOS – como o governo e polícia chamam os manifestantes… O nome “#ArteSubversivaParaTodos” surgiu justamente dessa ideia, pois quem é contra o governo é subversivo, e ser subversivo é ir contra a lei, o Estado. Acredito que assim conseguiremos mostrar a nossa voz, e, nada melhor do que a arte para mostrar isso mais rapidamente, de maneira mais estridente.

CAMALEÃO: Como você se introduziu aos direitos animais?
André Buika: Eu virei ovo-lacto-vegetariano após assistir um vídeo de “making of” de rodeio. Aquilo me pegou de tal maneira que nunca mais olhei pra carne com os mesmos olhos. E não fora a carne em si, mas as agressões e maus-tratos que me chocaram. Fiquei cerca de 45 dias ovo-lacto até me tornar oficialmente vegano. Foi bem rápida a transição, mas tive um grande suporte e ajuda de minha companheira. Ela trabalhou com a ONG VEDDAS (Vegetarianismo Ético em Defesa dos Direitos Animais e Sociedades) e no Restaurante Veghetus por alguns anos. Então acabei “devorando” muita coisa que ela tinha na bagagem. Tipos de protestos, livros, artes, leis… Mas o que mais aprendi é: não se ganha nada sendo arrogante… Escolhi ir pelo lado do diálogo, de imagens tocantes, palavras sabiamente escolhidas, porque, de agressividade, eu já estou batendo de frente contra…

CAMALEÃO: Concordo, muitas páginas de direitos animais no Facebook, por exemplo, optam por essas abordagens chocantes, com imagens cheias de dor e sangue, abordagem que não me atrai muito. Afinal uma das questões centrais dos direitos animais é a paz, não é?
André Buika: Exatamente. Chega a ser incoerente usar sangue para divulgar amor à vida. Não é para todo mundo que “funciona”…

CAMALEÂO: Então você perdeu o domínio do seu site… O que diria paras as pessoas que acreditam que não temos mais censura no Brasil?
André Buika: Acho que eu iria propor algo ao invés de dizer. Mostraria algo para essa pessoa. Algo que estou dizendo a ela que fora censurado e a mesma não acredita nisso. Pediria a ela, então, que fizesse uma espécie de laboratório (termo usado para criação, desenvolvimento e elaboração de personagens para teatro, filmes, etc.), tornando esta peça “pseudo censurada” como algo verdadeiro e real para ela, que teria que defender seu uso/prática. Vivenciar o que esta peça traz. Sentir a peça. Em um certo espaço de tempo, essa pessoa iria sofrer a censura, e, aí sim, eu sentaria com ela e conversaria sobre a censura brasileira. As pessoas hoje em dia, só acreditam no que se passa na frente dela, no que o olho vê, mas tem que ser com ela, a própria deve sentir. A censura está tão implícita, tão forte, que censura a própria censura, assim, não serão todos que a perceberão.

CAMALEÂO: O que é o eBuik@?
André Buika: É um projeto que tenho que está meio parado, mas pretendo concretizar este ano. Uma loja virtual, chamada eBuik@ (uma paródia ao eBay, no logo apenas) com produtos feitos à mão, como relógios em vinil musical recortados, produtos desenvolvidos com materiais recicláveis, luminárias de spray, coisas do tipo. E junto a esses produtos, ilustrações encomendadas e personalizadas, desenhos em parede, camisetas (estampas criadas por mim), etc.

CAMALEÃO: Você é anticapitalista?
André Buika: Sou anticapitalista sim. O capitalismo é uma doença que deu certo (para os poderosos, claro), tanto é que fujo ao máximo disso, virando um autônomo, por exemplo. Meu objetivo de vida (e isso acontecerá em no máximo 3 anos, pois muita coisa já fora encaminhada) é sair de Sampa e ir pra São Thomé das Letras. Farei este ano um curso de bioconstrução e lá construirei minha casa sustentável (o máximo que conseguir [risos]), morar na zona rural. Mas nada de ganhar dinheiro e ostentar, jamais. Ser “pobre” do valor monetário humano, mas ser rico em paz, natureza, sem hierarquia.

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Arte de domínio público disponibilizada na página de “Nazareno Guerrilha”: arte subversiva para todos!

CAMALEÃO: Porque você é contra a Copa no Brasil? 
André Buika: Quem procurou quem? O BraZil (sim, escrevo com “Z” pela ironia mesmo) é quem procurou a Fifa, não o contrário. O erro começa aí. Por que sediar um evento desses, sabendo dos enormes gastos que se tem? Não precisa nem estudar para saber que todo o investimento da copa salvaria o país de, no mínimo, 60% de todos os problemas. Desigualdade social, saúde, educação, transporte, etc, etc, etc… Tirando isso, era óbvio que a lavagem de dinheiro seria constante, acho que foi por isso que o governo procurou a Fifa, para enriquecer mais ainda nossos grandes políticos. Despejo arbitrário de famílias, “sumiços” indígenas, repressão policial, censura. Alguns fatores mais que me fazem ficar nessa posição contrária ao evento. Orgulho de que? Mostrar ao mundo o que? Vejo apenas um ponto positivo neste evento: será o PIOR da história. Marcado por violência, censura, roubos aos gringos, desorganização nata, vídeos/mídias independentes mostrando a verdade ao mundo. No final das contas, o BraZil só vai foder com a sua imagem, e isso eu gosto… Gosto porque a verdade subirá à tona.

CAMALEÃO: Se quiser dizer mais alguma coisa, fique a vontade…
André Buika: Eu tenho um pedido a acrescentar (risos). Pra galera que é dessa nossa geração, que reflita mais sobre a sua vida, que não se tornem adultos frustrados (e acabem descontando nos filhos). Que busquem a simplicidade, façam o que gostam, algo que dê prazer em fazer, e não obrigação. Acho que não falta mais amor na sociedade, falta amar, pois amor tem de monte.

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Intimação para que Buika comparecesse à delegacia de crimes digitais. NÃO a criminalização de movimentos sociais!!!

* Depoimento de André sobre o caso do metrô postado pelo coletivo ProtestARTE no Facebook, “para que todos saibam o que anda acontecendo na corporação de investigações digitais”:

“Em uma sexta-feira de dezembro, bate à minha porta um oficial de justiça que procurava por mim.

– Senhor Subversivo?
– Sim, pois não?
– Venho lhe trazer essa intimação para que compareça na segunda-feira à 4º Delegacia de Crimes Digitais, a DIG/DEIC.
– Mas por que estou sendo intimado?
– É relacionada às manifestações, eu acho.
– Tá bom né…

Então o oficial preencheu à mão a intimação (nunca vi isso), destacou o canhoto que assinei, me entregou o papel e foi embora.

Entrei em casa e liguei pra DP para saber o real motivo daquilo, quando me informaram que era para eu me esclarecer a eles sobre minhas atividades na internet.

Segunda-feira, fui à delegacia (próxima ao Carandiru) acompanhado de minha noiva (me aconselharam a não levar advogado pois ainda não seria necessário, apenas ir acompanhado de alguém).

Ao ser chamado, sentei em uma cadeira em frente a uma mesa e começaram as perguntas.

De início, perguntas bem “ingênuas”, com a intenção de eu assumir o porquê de estar ali (sim, eu já sabia o real motivo da intimação), até que o fulano percebeu que eu estava tirando uma onda com ele e foi direto ao assunto, que era uma arte de intervenção de rua que eu desenvolvi e disponibilizei geral.

Me perguntaram cerca de 20 vezes “você é do Black Bloc? Conhece alguém do Black Bloc? Já conversou com algum integrante do Black Bloc? Você apoia o Black Bloc?”, e, durante as perguntas que me faziam adicionadas a essas que acabei de escrever, percebi o real motivo da intimação, refletindo uma coisa: ou eles estão completamente perdidos nas investigações, ou eles pegam qualquer coisa que aparece “relacionada” e tentam apertar pra descobrir a “verdade” ou não sabem diferenciar uma coisa com a outra…

Conclui que eu fui intimado porque uma das FanPages do Black Bloc compartilhou (repito, COMPARTILHOU) a arte que desenvolvi. Ou seja, eu poderia ser um deles não é? Poderia ser o “cabeça criativa” do movimento. Meu perfil do Facebook é bem explícito quanto a isso: sou do grupo, eu quebro, boto fogo, tá tudo lá…. Só que não…

Duas horas após questionamentos sem fundamento algum, recheados de ameaças e reacionarismo, eu perdi o domínio de meu site, fui obrigado “suavemente” a retirar todo e qualquer material relacionado a protesto, indignação e afins que havia desenvolvido (e que eles já tinham tudo gravado em um CD) e então resolveram fechar o “caso”.

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Conclusões:
1) Mesmo que eu fosse/conhecesse o Black Bloc, eles realmente achariam que eu ia responder que sim? Quanta ingenuidade;
2) Eles têm ferramentas poderosíssimas em mãos, conseguem ver até nosso bate- papo do chat do Facebook, mas o domínio da ferramenta por parte deles não é tão poderosa quanto a própria;
3) O reacionarismo e as “boas lembranças da ditadura” reinam nas salas da DP;
4) Rola um choro coletivo pois “todo mundo odeia a polícia, mas quando se encontram em certas situações, precisam da gente”… Tadinhos;
5) Apenas cuidado pessoal, só ficar ligeiro. Eu me expus muito e dei algumas brechas. Aprendi com tudo isso;
6) IMAGINA NA COPA!!!!”
7) Seja Vegan!!!

Ciclista, editora do site de notícias “InforMarUbatuba.com” e jornalista do Portal Veganismo.

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