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Artigos, Artigos sobre Direitos Animais.

Traçando novos limites
Certa vez escrevi um texto intitulado “Traçando o Limite”, dizendo que bem-estaristas não pertenciam ao movimento de direitos animais. Causou certo alarde. Muito tempo passou, e graças ao esforço de muitos, a infiltração bem-estarista está muito mais fraca no que hoje eu prefiro chamar de movimento abolicionista, movimento vegano ou simplesmente veganismo.

Agora chegou o tempo de traçar o limite com os interseccionais. Não me entendam mal. Naquela época, como hoje, uma afirmação tão ousada, e um texto tão contundente, poderá causar mal-estar e até a ira em muitos. Eu tenho uma trajetória de estudos de movimentos sociais e defesa de direitos humanos. Eu posso falar sem imodéstia que fui o primeiro a escrever sobre liberdade animal e política dentro do veganismo brasileiro, a chamar a atenção para que combater uma forma de opressão supõe rejeitar todas as outras. E continuo tão firme quanto antes na defesa da dignidade inerente de TODAS as pessoas (humanas e não humanas) – ao contrário de muitos “novos movimentos sociais” que são seletivos nas suas solidariedades e relativistas em tantas outras – um prisioneiro, um torturado ou uma criança violada podem ter mais valor que outros na mesma situação, se o Estado ou a ideologia que desrespeitam a dignidade dessas pessoas for opressora ou “libertária”, inimiga ou amiga¹. Meu compromisso político não mudou uma linha desde a juventude, nem deixou jamais de se guiar por uma consciência universalista – não acredito em bons tiranos nem em relativismos. Então, não admito aulas de libertarismo em face do que vem a seguir.

Pessoas de outros movimentos, a princípio, são bem-vindas. Elas têm uma grande contribuição para dar ao veganismo, se quiserem dialogar e não ditar. Se vierem desarmadas e despidas de preconceitos. Se entenderem ou quiserem entender a filosofia do nosso movimento. Se aceitarem nossas premissas – não por autoritarismo, mas por coerência. Pois adentrar o veganismo relativizando o abolicionismo é como adentrar o movimento de direitos humanos relativizando a tortura ou a pena de morte. Infelizmente não é isso que vejo acontecer. Os interseccionais chegam, com um senso de superioridade moral, de detenção da verdade absoluta, querendo ditar regras, impor visões que são apenas aparentemente radicais – no mais das vezes são senso comum politicamente correto. São juízes e preconceituosos. Xingam os oponentes de machistas, racistas, elitistas, fascistas. E pior: são especistas. Dizem-se abolicionistas, mas absolvem todos os oprimidos da responsabilidade pela escravidão animais. Eles sim estão muito mais próximos do fascismo do que pensam, e são decididamente elitistas na defesa de seus privilégios.

Traçando o limite: já é duro combater os especistas fora do movimento. Agora ainda temos de fazê-lo de dentro, com os ditos interseccionais, que são especistas infiltrados, pseudoveganos, pseudoabolicionistas, pseudolibertários. Pessoas que não pertencem ao movimento abolicionista – pois negam seus princípios básicos.

 

Conclusão
Eu nunca me furto ao combate. Aceito o desafio. E a despeito de qualquer patrulha, sigo dizendo:

Os animais são escravos, para eles é uma “Eterna Treblinka”; eles são a base da hierarquia criada pelos humanos para se diferenciarem entre si e dos demais animais; as vacas são sim, estupradas, sistematicamente, ao longo de suas curtas e infelizes existências, que acabam com um corte na garganta. E os bezerros e pintos machos prestam testemunho: a “política sexual da carne” diferencia os sexos, mas há formas de violência que, ainda que diferentes, são igualmente abjetas.

Eu me solidarizo com todas as pessoas que sofrem, com todas que sofrem abuso, violência, preconceito, exploração. E aquelas que mais sofrem abuso, violência, preconceito e exploração, são as PESSOAS NÃO HUMANAS.

Eu não defendo um veganismo palatável aos especistas. Eu defendo um veganismo que diga a verdade, por mais dura que seja. A mentira e a covardia não são boas estratégias. Mas o que vejo, na maioria dos “veganos” interseccionais, é ainda pior: é capitulação. Eles abdicam da defesa irrestrita das pessoas não humanas – se é que um dia se orientaram por esse princípio – para compactuar com o especismo de outras causas “progressistas” – como se fosse possível um especismo libertário.

Não nos cabe fazer concessões. Não nos cabe ser submissos. Cabe-nos lembrar aos movimentos de direitos humanos as palavras de Simone de Beauvoir, filósofa feminista e existencialista: que a liberdade de um só se realiza com a liberdade de todos; que ser omisso é ser conivente; que não há meio termo: ou se combate a opressão ou se é um opressor. Com um correção: no nosso caso, veganos abolicionistas, trata-se da liberdade de TODAS as pessoas, não apenas as pessoas humanas.

Dialogar, sim. Solidarizar-se, sempre. Colocar as pessoas de outras espécies em segundo plano – JAMAIS!

O veganismo não é uma dentre muitas causas. Ele é o primeiro passo para quem se quer libertário. O primeiro passo para realizar a liberdade para todas as pessoas do planeta².

 

Resumo
Parte I – Tese central:
O Especismo está à porta do movimento vegano abolicionista, na medida em que pessoas e grupos que se dizem veganos adotam, nos fóruns, posturas especistas, que privilegiam os interesses de certos humanos de explorar animais, geralmente usando como justificativa a condição oprimida dos mesmos.

Parte II – Teses Centrais:
1. Interseccionais acusam os veganos de elitistas. Reconheço que o movimento pode adquirir essa característica, mas o rejeito por ora, constatando sua diversidade e abertura. E, por meio de argumentos, tentei demonstrar como os interseccionais são os verdadeiros elitistas, ao defender privilégios de humanos, ao propagar a hierarquia através do especismo e ao se considerar no direito de ditar o que o movimento deve ser.

2. Interseccionais também acusam os veganos que discordam deles – ou parte – de fascistas. Fiz uma exposição detalhada do que significa este conceito, apoiado num dos poucos acadêmicos que discorda do senso comum de que foi histeria coletiva e obscurantismo anti-iluministas que teve o poder de provocar uma guerra mundial, um genocídio e milhões de mortes. Eu não acusei os interseccionais de fascismo, pois incorreria na mesma falácia que eles se o fizesse, mas digo sem medo de errar que certos traços ideológicos (holismo, culto à identidade e naturalização das mesmas, a eterna busca por um “outro” inimigo) e táticos (mentiras, difamação, intimidação, manipulação) dos interseccionais são semelhantes ao fascismo, e que antes de apontarem o dedo acusador talvez devessem fazer um exame de consciência e também de suas ideologias.

Parte III – Tese Central:
Os interseccionais como aqui apresentados não pertencem ao movimento, como eu disse na parte II, não por fascismo, elitismo ou autoritarismo, mas porque suas ideias e táticas são tão estranhas ao movimento quando as ideias e práticas de um pecuarista ou vivissector. Isso não quer dizer que eles não sejam bem vindos para o debate e para integrar o o próprio movimento: conquanto que mudem sua atitude e aceitem nossas premissas básicas, abolicionistas, individualistas e universalistas, sempre dando prioridade às pessoas animais, sem negar, porém, a solidariedade com as pessoas humanas – TODAS! – que também são vítimas de opressão e violência.

 

Notas
¹ Vou dar dois exemplos simples para clarificar: os prisioneiros políticos e a perseguição de dissidentes, a morte de um deles por greve de fome, em Cuba, nos idos de 2011, em nada incomodou os movimentos sociais. Mas bastou cinco cubanos serem presos por espionagem nos EUA, na mesma época, para que ocorresse uma comoção geral. Tal caso eu testemunhei in loco, no meio das minhas pesquisas de doutorado, através de mailing lists e buscas nos sites dos movimentos. Mas se você acha que Cuba é o “paraíso socialista”, lide com isso: Daniel Ortega, presidente da Nicarágua e pedófilo comprovado (diferente de Woody Allen, contra quem tudo que se tem são alegações inverossímeis ou impossíveis de provar) foi recebido em festa no Fórum Social Mundial, quando este decidiu de vez abandonar sua hipócrita (pois nunca houve de fato) proibição da participação de chefes de Estado. Apenas algumas feministas protestaram.

² E para quem achou as frases de abertura e encerramento “fascistas” ou “autoritárias”, saiba que a primeira é uma paráfrase de Mohandas Gandhi, e a segundo é inspirada no ensaio de Leon Tolstoy, O Primeiro Degrau – de 1891! – em que, diz o autor, o vegetarianismo é o primeiro degrau para a evolução moral da humanidade.

PS: Conforme esperado, essa série de textos deu muita repercussão negativa. O que me entristece é que as pessoas que o criticaram não tiveram coragem de aparecer publicamente. Mas eu tenho meus informantes… risos. Enfim, tal atitude inviabiliza o debate construtivo de ideias e o crescimento intelectual de todos. Não sei se terei tempo ou paciência para refutar, uma a uma, as objeções que me levantaram, algumas bem abaixo da crítica. E muitas outras, como que eu digo que todos os interseccionais não são abolicionistas e são fascistas, já estão refutadas para o leitor atento. De qualquer forma, agradeço a todos que se deram o trabalho de ler este longo ensaio, e espero que seu efeito seja profícuo, a longo prazo, para a causa da liberdade animal. Obrigado.

Bruno Müller

Historiador, doutor em História das Relações Internacionais pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Membro da Sociedade Vegana. Co-editor e colaborador da Revista Eletrônica de Direitos Animais Pensata Animal. Vegano e ativista independente desde 2007, ministra palestras e faz ações de conscientização em prol do veganismo e direitos animais na cidade do Rio de Janeiro.

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