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A veganofobia corre solta, junto a muitos onívoros, ovo-galacto-carnistas e mesmo a galactômanos não-carnistas

Há pessoas que dizem não deixar de comer carnes e laticínios porque os veganos são chatos e elas não querem ser identificadas como chatas assim. Essas pessoas encontraram apenas uma desculpa bem furada para continuar sua dieta macabra.

Furada por quê? Porque, simples assim, os veganos não se tornaram veganos por conta da gentileza dos humanos para com eles ou para com os animais. Foi o contrário. Foi pelo fato de constatarem que a gentileza dos humanos é hipócrita quando se trata da forma pela qual os animais são considerados.

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Gentileza não gera gentileza? Pois então! Sabendo que quando não somos gentis não temos o direito de esperar ser tratados com gentileza, e usando a coerência que tanto veganofóbico odeia, nós, veganas e veganos chatos ou agradáveis ao palato ovo-galacto-carnista concluímos que, para merecer ser bem tratados, primeiro precisávamos abolir de nossa biografia a carga de maus-tratos que causávamos a todos os animais. Então nos tornamos veganos, por conta disto: do sofrimento e tormento que causávamos aos animais criados e mortos para nosso consumo.

Os veganos não tiraram a carne do prato porque encontraram anjinhos soprando suavemente em seus ouvidos que os animais são torturados e mortos para que se tenha um bife ou uma fatia de queijo. Nenhum vegano decidiu ser vegano porque alguém veio lhe fazer um carinho. Sinto muito.

Acho que todos os veganos levaram foi mesmo um grande tabefe no dia em que viram o primeiro filme de um abate e de um centro de maus-tratos às vacas das quais o leite é extraído, ou, quando ainda não existiam esses filmes, como é o meu caso que já estou na terceira idade, leram o primeiro livro que descrevia o que os animais sofrem. Um tabefão. Daqueles que fazem a gente se recolher e ficar passando a mão na marca, para aliviar a inflamação e ao mesmo tempo manter a memória, não permitir que ela se esvaia em meio a tantas sensações palativas e gustativas que a ingestão de alimentos animalizados propicia.

A gente não quer esquecer que o prazer de uma fatia de torta requintada, de um creme de leite colocado no cacau, do leite usado na vitamina, do queijo, do churrasco e similares, custou ao animal não apenas a vida, mas muita inflamação e infecção antes de ser mandado para a câmara de sangria. A gente não quer esquecer que gosta de ser tratado com carinho.

Mas também não queremos esquecer que os animais não gostam de ser tratados com brutalidade. Somos coerentes, algo que os veganofóbicos agora usam para nos acusar e nos apontar como pessoas desagradáveis. Coerência tem seu custo. É verdade. Ser ético não é buscar prazer para si, é evitar causar sofrimento e tormento para o outro. Custa muito. E a gente só é desagradável àqueles que esperam que nosso palato seja similar ao seu. Sorry! Nosso palato é outro. Não nos apetece mais o que antes nos apetecia e ainda apetece a toda gente. Tem gosto ruim. De sangue e pus.

O mundo dos animais usados para comida humana é um inferno. Os veganos já visitaram esse inferno. Quase todos estão lá todos os dias para ver como fazer algo para abolir tudo isso. Não esperem sorrisinhos e bom humor condescendente. A dureza da realidade precisa ser mostrada, senão fica todo mundo com o coração amolecido por conta da girafa esquartejada para servir de comida ao leão no zoológico e se esquece que a comida do almoço é o esquartejamento de porcos, vacas e galinhas, para não falar de peixes, pois esses não são cortados em “quartos”, não são esquartejados.

Enfim, a dureza dos veganos se deve ao fato de que eles mostram a moleza ou viscosidade da moralidade vigente. Isso aborrece a quem vive dos prazeres que a carne e os laticínios propiciam, aliás, por serem carregados de opioides, de efeito morfínico, como o são esses derivados da caseína, presente no leite e em todos os alimentos feitos com ele, razão pela qual a maioria dos galactômanos afirma não ser capaz de “deixar o meu queijinho”. Vício.

Somos tão molengas para suportar umas palavrinhas duras ou as imagens da crueldade contra os animais, não é mesmo? Mas somos bem fortes para ver os animais sofrendo e achar que só devemos parar com isso se formos seduzidos gentilmente para tirar do prato, do guarda-roupa, do banheiro, do espetáculo, os restos mortais deles, ou seus corpos violentados e mantidos ativos para locupletar a massa. Ah! Tenha paciência!

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Nota da Redação: O Portal Veganismo optou pela publicação dos vídeos abaixo visando proporcionar a dura realidade tratada no artigo em questão pela filósofa Sônia T. Felipe e para que os leitores possam compreender melhor a motivação central do veganismo e o artigo acima.



• Para saber mais informações sobre Veganismo & Direitos Animais, acesse: www.sejavegan.com.br

Sônia T. Felipe, doutora em Teoria Política e Filosofia Moral pela Universidade de Konstanz, Alemanha (1991), fundadora do Núcleo de Estudos Interdisciplinares sobre a Violência (UFSC, 1993); voluntária do Centro de Direitos Humanos da Grande Florianópolis (1998-2001); pós-doutorado em Bioética – Ética Animal – Univ. de Lisboa (2001-2002).

Autora dos livros, Por uma questão de princípios: alcance e limites da ética de Peter Singer em defesa dos animais (Boiteux, 2003); Ética e experimentação animal: fundamentos abolicionistas (Edufsc, 2006); Galactolatria: mau deleite (Ecoânima, 2012); Passaporte para o Mundo dos Leites Veganos (Ecoânima, 2012); Colaboradora nas coletâneas, Direito à reprodução e à sexualidade: uma questão de ética e justiça (Lumen & Juris, 2010); Visão abolicionista: Ética e Direitos Animais (ANDA, 2010); A dignidade da vida e os direitos fundamentais para além dos humanos (Fórum, 2008); Instrumento animal (Canal 6, 2008); O utilitarismo em foco (Edufsc, 2008); Éticas e políticas ambientais (Lisboa, 2004); Tendências da ética contemporânea (Vozes, 2000).

Cofundadora da Sociedade Vegana (no Brasil); colunista da ANDA (Questão de Ética) www.anda.jor.br. Coordena o projeto: Ecoanimalismo feminista, contribuições para a superação da discriminação e violência (UFSC, 2008-2014).

Foi professora, pesquisadora e orientadora do Programa Interdisciplinar de Doutorado em Ciências Humanas e do Curso de Pós-graduação em Filosofia (UFSC, 1979-2008). É terapeuta Ayurvédica, direcionando seus estudos para a dieta vegana.

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