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O que é uma pessoa vegana?

Lá pelos idos de 2003, quando ofereci o primeiro curso de extensão sobre ética animal, na UFSC, em parceria com o então candidato ao doutoramento interdisciplinar, o médico veterinário Silvio Luiz Negrão, introduzi o termo em português, vegana, vegano e a informação sobre a Sociedade Vegana criada na Inglaterra por Watson, três amigas e um amigo, justamente para que ficasse distinguido o comedor totalmente desanimalizado, sem ser mais confundido com os que adoram se denominar vegetarianos e comem tudo que contém algo de origem animal, menos as ditas carnes vermelhas.

Passados dez anos, em 2013, fui convidada para um evento acadêmico na UNICAMP, para participar do debate sobre feminismo e veganismo.

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Uma das mulheres que apresentou trabalho deu uma definição de veganismo ao mesmo tempo em que criticava quem queria definir o veganismo. Ao final, no debate, mostrei a ela que veganismo não era uma “moda” que a pessoa seguia por um tempo e depois abandonava, era um projeto ético de vida, para toda uma biografia. Também mostrei a ela que havia se contradito, ao dizer que ninguém tem direito de definir coisa alguma e ter definido algo com falhas visíveis.

Ah! Pra quê?! Quando a senhora se viu sem chão, pela contradição de proibir que alguém definisse algo e ter definido toscamente algo, me chamou de “misógina”! Por quê? Porque usei o termo “veganismo não é uma moda”. Segundo o entendimento desta jovem senhora, quem usa a palavra moda para designar alguma coisa relativamente a alguma mulher é “misógina”, porque esta palavra está associada a um certo conceito de feminino. E foi por aí afora. Fiquei em estado de choque, pelo grau de estupidez que pressenti em quem vinha se dizendo vegana e parecia não ter lido nada sobre veganismo. E a acusação de que quem formula um conceito e o expõe está sendo “autoritária” foi mesmo de lascar.

Imperdoável dentro do mundo acadêmico, pois não há um curso sequer que não esteja firmado sobre o aprendizado dos conceitos básicos e mais avançados daquela área.

Agora vejo que há quem tenha se feito passar por vegano por mais de uma década e admita que mata peixe e come. Mais uma vez, vejo que está imperando o nihilismo conceitual que me foi exigido pela jovem feminista em 2013.

“Ninguém tem o direito de conceituar nada”, assim cada uma pega o que quer de uma ideia e se autointitula com o termo que interessa.

Filosofia e ética devem ser estudos básicos em qualquer área do saber. Mesmo em áreas tidas como avessas aos livros.

Então, ao manter a lisura de um projeto ético e de seus conceitos fundamentais eu sou “autoritária” e “misógina” (ao criticar outra mulher que estava definindo veganismo a seu modo tosco e dizendo que ninguém podia definir coisa alguma para os outros…)?

Deixei de esperar das pessoas qualquer seriedade no uso do termo vegano para se autodesignar.
Ou a gente é vegana e não apenas não come nada animalizado, também não usa qualquer produto que tenha custado o bem maior do animal, e, além da dieta, atua em defesa dos direitos animais e da abolição de todas as suas formas de exploração e matança, ou a gente não é vegana, está pegando carona na “moda”, sim.

Como a “moda vegana” dá estatuto moral de nobreza, não importa o sexo da pessoa, se feminino ou masculino, imagino o que pessoas que abrem uma exceção aqui, outra ali não comem, de fato, toda vez que se sentem em apuros com a demanda do estômago. Pesa mais o estômago do que a consciência? Então, definitivamente (podem chamar de misoginia ou de “misoandria’, não importa) não é uma pessoa vegana. Pessoas veganas têm a consciência ética animalista abolicionista como lanterna ou farol e não desviam deste feixe de luz.

Foi para a floresta e não levou comida vegana? Azarou. Jejua. Foi viajar e não levou lanche vegano e a companhia aérea só serve comida animalizada? Azarou. Jejua. Nosso desconforto, que, no caso do estômago, é passageiro, não se compara ao terror da experiência de um campo de concentração e de uma fila com a senha da morte fixada na orelha, nas guelras, na testa, no dorso.

Por isso criei o Animastê! Via com clareza que de tanto se dirigirem umas às outras com o Namastê, as pessoas acabavam por esquecer do animal que são, querendo livrar-se da real condição na qual aceitaram nascer, querendo ser divindades sem antes terem vencido a etapa do respeito à animalidade alheia e em si mesmas.Animastê!

Sônia T. Felipe, doutora em Teoria Política e Filosofia Moral pela Universidade de Konstanz, Alemanha (1991), fundadora do Núcleo de Estudos Interdisciplinares sobre a Violência (UFSC, 1993); voluntária do Centro de Direitos Humanos da Grande Florianópolis (1998-2001); pós-doutorado em Bioética – Ética Animal – Univ. de Lisboa (2001-2002).

Autora dos livros, Por uma questão de princípios: alcance e limites da ética de Peter Singer em defesa dos animais (Boiteux, 2003); Ética e experimentação animal: fundamentos abolicionistas (Edufsc, 2006); Galactolatria: mau deleite (Ecoânima, 2012); Passaporte para o Mundo dos Leites Veganos (Ecoânima, 2012); Colaboradora nas coletâneas, Direito à reprodução e à sexualidade: uma questão de ética e justiça (Lumen & Juris, 2010); Visão abolicionista: Ética e Direitos Animais (ANDA, 2010); A dignidade da vida e os direitos fundamentais para além dos humanos (Fórum, 2008); Instrumento animal (Canal 6, 2008); O utilitarismo em foco (Edufsc, 2008); Éticas e políticas ambientais (Lisboa, 2004); Tendências da ética contemporânea (Vozes, 2000).

Cofundadora da Sociedade Vegana (no Brasil); colunista da ANDA (Questão de Ética) www.anda.jor.br. Coordena o projeto: Ecoanimalismo feminista, contribuições para a superação da discriminação e violência (UFSC, 2008-2014).

Foi professora, pesquisadora e orientadora do Programa Interdisciplinar de Doutorado em Ciências Humanas e do Curso de Pós-graduação em Filosofia (UFSC, 1979-2008). É terapeuta Ayurvédica, direcionando seus estudos para a dieta vegana.

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