Escrito em por
Artigos, Artigos sobre Direitos Animais.

Vivemos em um país onde a educação é algo que todos reconhecem como fundamental, seja para o desenvolvimento pleno do individuo, seja para o da sociedade como um todo.

Apesar de todos reconhecerem a importância da educação, sabemos que na prática pedagógica cotidiana esse pleno desenvolvimento sofre com inúmeras dificuldades para sua efetivação. Tanto a educação formal quanto a não formal, seja na escola, seja em casa. Essas dificuldades são das mais variadas ordens: falta de estrutura física, falta de profissionais bem formados, remuneração baixa, pais com paupérrimo capital cultural para ajudar os filhos, contexto familiar assolado por mazelas socioeconômicas, são muitas as barreiras. Mas mesmo assim, a educação é vista como algo que tem o potencial de mudar a estrutura da sociedade.

Dos excessivamente otimistas aos pessimistas, passando pelos críticos, a educação é vista como o único meio efetivo de mudarmos como uma sociedade lida com seus dilemas morais. Acredita-se que a educação tem o poder de conscientizar criticamente as pessoas sobre a importância de abandonarmos preconceitos arraigados tendo como fim alcançarmos um mundo mais democrático, mais justo e ético.

Há pouco, fomos surpreendidos com algo novo na historia da educação mundial, a descrença total na educação. O início desse artigo diz que “TODOS reconhecem a importância da educação”. Mas tal afirmação, hoje, é um equivoco, nem todos reconhecem que ela é fundamental.

Quem seriam essas pessoas que acreditam e pregam que a educação é insignificante, desnecessária? Elas são partidárias de uma ideologia chamada bem-estarismo. Os bem-estaristas não satisfeitos em manter o status quo para os animais não humanos, ou seja, investindo com discursos e práticas para manutenção da condição de coisas, produtos, vivos-vazios dado aos animais há séculos; agora eles também pregam a inutilidade da educação no processo de conscientização da sociedade quanto ao especismo inerente na relação que temos com os animais não humanos.

Vejamos o que diz um “líder” de uma das maiores corporações bem-estaristas do mundo, instalada há pouco no Brasil, sobre a educação:
“Time, venho aqui passar um recado importante, que deve ser enfatizado em cada capacitação que vocês fizerem:
Eu venho falando com alguns grupos em algumas cidades que a MFA não acredita que o fim da exploração possa acontecer através da educação. Mas acreditamos que ela possa acontecer devido a avanços tecnológicos, principalmente os que a gente investe através da The Good Food Institute e do New Crop Capital. Muitos ativistas voluntários se sentem frustrados por terem muita energia para querer mudar o mundo e não verem a mudança acompanhando do jeito que eles gostariam. É preciso que a gente mostre que a grande mudança não se dará pela educação. O trabalho que fazemos nas mídias sociais e nas ruas é importantíssimo tanto para reduzir ao máximo a quantidade de sofrimento em larga escala, quanto para preparar terreno para uma grande mudança que virá a partir de fatores econômicos, políticos e corporativos.

É importante que os voluntários entendam que a MFA não apenas faz tudo para educar, como ela investe como nenhuma outra ONG nessa grande mudança que virá de cima. Acho muito estimulante e importante que todos os nossos voluntários entendam”.

Recado mais claro que esse impossível de ser passado. Para a MFA a educação é dispensável, a “grande mudança virá de cima”. Quem está acima da educação como meio de trans/formação de uma população hodiernamente especista numa futuramente abolicionista?

Segundo a MFA os fatores econômicos, políticos e corporativos via avanços tecnológicos. “A MFA não acredita que o fim da exploração possa acontecer através da educação”, diz o líder da corporação no Brasil. Não é suficiente o descredito com o processo educativo, é preciso mostrar ao público que a grande mudança no status de coisas dos animais não se dará pela educação. Por outro lado, depois de desacreditar a educação e de ordenar que os voluntários propaguem que a grande mudança não se dará pela via educativa, na finalização do recado o líder diz que “a MFA não apenas faz tudo para educar”. Damos a mínima para a educação, mas educamos (adestramos voluntários) para a manutenção do status quo, é isso mesmo?

Esse recado sobre a inutilidade da educação é tão assustador que nos faz refletir sobre a história da educação. Se nos atermos apenas ao século XX, veremos que a historia da educação brasileira passou por varias fases. Começando com o ainda praticado modelo tradicional, durante a década de 1930 tivemos a proposta escola novista, no período da assombrosa ditadura militar (1964-1985) tivemos a implantação do modelo tecnicista e uma tímida resposta das teorias critico-reprodutivistas e progressistas, além de uma rápida passagem das pedagogias antiautoritárias com suas propostas de educação libertária que mal nasceram e foram dizimadas.

O que vemos com esse recado da MFA Brasil é que os bem-estaristas não defendem o modelo tradicional, não defendem a tendência tecnicista (que em tese deveria ser o seu norte, já que o foco é apostar em avanços tecnológicos, nos fatores econômicos, em politicas reformistas em nome do capital das grandes corporações) que veio para o Brasil num acordo entre o MEC e a USAID (United States Agency for International Development), para transformar as escolas em empresas burocratizadas; e, antes que nos enganemos com uma leitura superficial do recado bem-estarista, ao decretarem a insignificância da educação, eles não estão defendendo a desescolarização da sociedade como Illich. Não, a mensagem é outra, é aterradora, algo que nem Illich com sua crítica contundente chegou a propor. Nem a ditadura militar chegou a esse ponto de desconsiderar a educação como um fator de maior importância no processo de mudança de hábitos e costumes. Até mesmo os regimes políticos totalitários usavam da educação para passarem, legitimarem e manterem suas ideologias em voga. Os bem-estaristas da MFA objetivam algo que nem os governos totalitários fizeram, descartar a educação como algo de somenos importância.

Num país como o nosso, em que a educação da maioria da população – seja formal ou não formal –, é paupérrima, precisamos mais do que nunca lutar por uma educação critica, voltada para a abolição de todas as formas de preconceitos, dentre eles os especismo. Ao contrário do que pensa e faz os bem-estaristas, não precisamos gastar energia com reformas que dão a aparência de redução do sofrimento animal, precisamos sim, de mais educação vegana abolicionista, que luta pelo fim do USO de tudo que advém da escravidão dos animais não humanos.

Somente uma corporação bem-estarista que despreza a educação, divulga hipocritamente em seu web site, nas mídias sociais e em vídeo que a MFA tem quatro principais áreas de atuação, sendo a educação a primeira, “promovendo o veganismo em larga escala e criando programas de políticas alimentares para reduzir o consumo de produtos de origem animal em grandes instituições públicas”.

Já que dos recursos recebidos pela corporação, o “departamento” de educação recebe a maior porcentagem, 34%, para “a promoção de materiais pró-veganismo”. No entanto, nos bastidores, em seus cursos de capacitação de ativistas, como mostra o recado do seu líder citado acima, vemos a crença na ineficácia da educação quanto a grandes mudanças. Divulgar uma mensagem pró-educação ao grande público e nos bastidores pregar o oposto é o quê?

É importante que os voluntários da corporação entendam que a educação não é o motor de grandes mudanças morais, assim como acreditar soberbamente que “nunca na historia nenhuma organização mudou a vida de tantos animais em tão pouco tempo. Merecemos qualquer prêmio do mundo.”

A arrogância é tanta que chegam a dizer: “fizemos o maior trabalho já feito pelos animais na historia! […] Tenho certeza que 2017 será épico, bateremos recordes anuais contra a crueldade!”.

Qualquer pessoa que não despreza a educação sabe que é uma contradição ser contra a crueldade e defender meios “menos” exploratórios de produção de animais (ditos de consumo). Qualquer pessoa que não despreza a educação sabe que promover o veganismo com politicas alimentares de redução de consumo não é promover veganismo, que não é uma dieta.

Qualquer pessoa que não despreza a educação sabe que trocar as galinhas de gaiolas para galpões não reduz sofrimento, nem é combater a crueldade. Qualquer pessoa que não despreza a educação sabe que nos últimos dois séculos de bem-estarismo, nenhuma política reformista contribuiu para livrar os animais não humanos do sofrimento, da crueldade e muito menos levou a abolição do uso.

Qualquer pessoa que não despreza a educação sabe que reformar o sistema não é abolir o sistema, e se o sistema escravagista não foi abolido nada mudou na vida do escravo, logo, para os animais usados para todos os fins supérfluos humanos, o bem-estarismo é a perpetuação da escravidão.

O bem-estarismo sempre foi o maior e pior inimigo dos animais não humanos, agora também o é, declaradamente, da educação vegana abolicionista dos animais humanos.

Referência: Imagens de print 1 e print 2 publicados na Internet.

Leon Denis – Ativista e atleta vegano pelos direitos animais.

Autor da obra Educação vegana: tópicos de direitos animais no ensino médio (2012), organizador das obras Educação & direitos animais (2014) e Educação vegana: perspectivas no ensino de direitos animais (2017), e co-autor das obras: Visão Abolicionista: ética e direitos animais (2010) e, Somos Todos Animais (2014). Pioneiro no ensino de direitos animais e veganismo em escolas públicas no Brasil. Colunista da ANDA – Agência de Noticias de Direitos Animais.

Membro fundador da Sociedade Vegana, da Liga Animalista e da EBRAV (educadores brasileiros abolicionistas veganos)

 

Share on Facebook74Tweet about this on TwitterShare on Tumblr0Share on Google+0Email this to someonePrint this page

Deixe uma resposta