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Artigos, Artigos sobre Direitos Animais.

O educador Paulo Freire inicia seu livro A importância do ato de ler, dizendo que:

“A leitura do mundo precede a leitura da palavra, daí que a posterior leitura desta não possa prescindir da continuidade da leitura daquele. A compreensão do texto a ser alcançada por sua leitura crítica implica a percepção das relações entre o texto e o contexto.”

Freire conta seu contexto infantil e juvenil para daí explicar como se deu sua leitura crítica da palavra escrita. Vejo que falta esse processo no movimento animalista brasileiro. Seus adeptos, sejam ativistas ou simpatizantes, vivem um mundo rico em mensagens e experiências, mas pobre de leitura desse mundo. Não há leitura do mundo, muito menos a leitura da palavra escrita sobre esse mundo. Ao viver de modo alienado em seu mundo, a palavra crítica interpretativa dele perde sentido, quiçá teve algum.

Vamos a um exemplo prático. Quando um teórico da causa animal publica uma crítica ou uma reflexão sobre uma ação, a maioria das pessoas que se identificam com aquela ação toma o teórico como inimigo, sem fazer uma reflexão crítica da crítica lida, ou seja, ela foi apenas lida e não compreendida. Isso dificulta a tomada de conhecimento de que aquelas palavras resultam de uma visão de mundo, de uma leitura de mundo. Essas pessoas mergulhadas em suas práticas acabam – por hábito – protegendo seu mundo de leituras e interpretações críticas. Nem elas mesmas fazem sua leitura própria, ou quando o faz não é com um olhar crítico, revisando passo a passo, com o objetivo de melhorar a ação, mas por uma necessidade momentânea.

No plano da teoria, com respaldo na prática cotidiana, a relação humana com os animais não humanos pode ser dividida em três perspectivas: a especista, a bem-estarista e a abolicionista. A grande maioria da população tem uma visão especista do mundo natural, mas sem ter noção de que é especista. Não conhece o termo, o conceito e por isso ainda não refletiu sobre sua prática diária discriminatória.

Somente uma parcela risível da população tem consciência do especismo e o defende abertamente. Essa maioria especista é adepta do que conhecemos como bem-estarismo. O bem-estarismo é aquela corrente que defende a redução da exploração animal e não a abolição do uso. É aquela que defende “abate humanitário”, jaulas maiores, tanques maiores, métodos de manejo menos dolorosos, criação extensiva e não em fazendas fabricas, a troca de gaiolas de bateria por galpões de confinamento, entre outros meios de amenizar o sofrimento dos animais. Ou seja, o bem-estarista é um especista que não se vê como especista.

O bem-estarista não advoga abertamente que somos uma espécie superior e que por isso temos o direito de escravizar e usar os animais a nosso bel-prazer; ele defende que podemos usar desde que não submeta os animais a torturas extremas, a sofrimentos extremos. Pode-se usar, mas com cuidado, “humanitariamente”, expandindo as jaulas, alimentando com ração Premium e com água limpa. Ou seja, o bem-estarismo não defende a mudança no status moral dos animais que há séculos é o de coisas, de produtos, de propriedade. O bem-estarismo é a palavra escrita que legitima sua leitura especista do mundo.

Os abolicionistas guiados por princípios éticos genuínos buscam cotidianamente unir a leitura crítica da palavra escrita (reconhecer sua importância via temas, conceitos e definições) com a leitura do mundo.

Os abolicionistas que se propõem educar veganamente assumem que sua atuação é ideologicamente política; ao contrário dos bem-estaristas que procuram constantemente passar a imagem de que são ideologicamente neutros, ou como eles dizem, sem rótulos, desapegados dos termos e conceitos. Conceitos que foram construídos durante décadas ou séculos de reflexão filosófica.

Para superar e abolir o especismo e a cínica má-fé bem-estarista, os educadores veganos abolicionistas precisam estudar profundamente os fundamentos da causa animal, de modo sempre crítico e autocrítico, vendo sempre os alcances e os limites, unindo texto e contexto. Assumindo sem receio seu engajamento político.

Voltando a Freire, ele faz uma interessante crítica ao “mito da neutralidade da educação, que leva à negação da natureza política do processo educativo”, tomando-o esse processo “como um quefazer puro”. Para Freire é impossível uma educação neutra, assim como uma prática política vazia de significado educativo. Segundo o educador,

…tanto no caso do processo educativo quanto no ato político, uma das questões fundamentais seja a clareza em torno de a favor de quem e do quê, portanto contra quem e contra o quê, fazemos a educação e de a favor de quem e do quê, portanto contra quem e contra o quê, desenvolvemos a atividade política. Quanto mais ganhamos esta clareza através da prática, tanto mais percebemos a impossibilidade de separar o inseparável: a educação da política.

Isso significa que a educação vegana – formal ou não formal – é uma ação política, politizada e politizadora. O modelo educacional tradicional é essencialmente especista. Não existe uma disciplina sequer dentro das escolas, como componente curricular, que não seja perpassada pelo especismo. Os docentes, na sua grande maioria, são especistas, e seu material didático reproduz essa ideologia naturalizando essa cultura milenar. Não é novidade que a escola é o local par excellence da reprodução da ideologia dominante. E a pretensa superioridade do humano sobre o animal não humano faz parte dessa ideologia somatofóbica.

No entanto, mesmo com todo o poder hegemônico dessa estrutura estruturada e estruturante especista, a realidade é dialética e não metafisica, ou seja, formada por contradições e não estática. A escola como reprodutora das ideias que sustentam a sociedade, reproduz também suas contradições práticas, e é dentro desse contexto que a educação vegana como ação política, como ação direta pedagógica, faz o papel de contra-hegemonia, em termos gramscianos.

Quando o indivíduo ultrapassa a adoção do modo de vida vegano e coloca para si mesmo a responsabilidade de transmiti-lo para os outros, estamos diante da educação vegana como ação política. Segundo Freire,

Na medida em que compreendemos a educação, de um lado, reproduzindo a ideologia dominante, mas, de outro, proporcionando, independentemente da intenção de quem tem poder, a negação daquela ideologia (ou o seu desvelamento) pela confrontação entre ela e a realidade (como de fato está sendo e não como o discurso oficial diz que ela é), realidade vivida pelos educandos e pelos educadores, percebemos a inviabilidade de uma educação neutra. A partir deste momento, falar da impossível neutralidade da educação já não nos assusta ou intimida. É que o fato de não ser o educador um agente neutro não significa, necessariamente, que deve ser um manipulador. A opção realmente libertadora nem se realiza através de uma prática manipuladora nem tampouco por meio de uma prática espontaneísta. O espontaneísmo é licencioso, por isso irresponsável. O que temos de fazer então, enquanto educadoras e educadores, é aclarar, assumindo a nossa opção, que é política, e sermos coerentes com ela, na prática.

Quando introduzi no ambiente escolar a temática dos direitos animais, da ética animal, o que levou a um caloroso debate sobre a dieta vegetariana e o modo de vida vegano, rapidamente apareceu por parte do corpo docente, da coordenação pedagógica, da direção da escola e, não menos, dos pais, a ideia de que eu, como autoridade pedagógica, estava impondo meu modo de vida e minha dieta para os alunos. Foi pedido em reuniões que a aula fosse “neutra”, caso contrário eu estaria doutrinando meus alunos. O que Freire chama de “prática manipuladora”.

Por mais que eu apresentasse filósofos e obras filosóficas que sustentavam os temas que eu estava introduzindo em aula; por mais que eu apresentasse os próprios documentos oficiais do Estado e do Ministério da Educação que davam suporte a introdução dessa temática em aula, nada adiantava. De um lado estava eu como manipulador, impositor, doutrinador e, em termos platônicos, “corruptor dos jovens”; e, do outro lado, pais, professores e direção defendendo o ensino tradicional, ou seja, aquele que não exige reflexão sobre o que se come, o que se veste, o que se usa na higiene pessoal e da casa, sobre nossas práticas de lazer, sobre nossas pesquisas cientificas…

Quando introduzi a temática animalista em sala de aula, os objetivos sempre foram claros:
– Apresentar aos alunos que existem outras formas de ver e de se relacionar com os outros animais e com o ambiente natural.
– Apresentar um outro olhar ético sobre nossas escolhas cotidianas.
– Apresentar um olhar crítico sobre nossas tradições e costumes.

Para isso é preciso reaprender a ler o seu mundo, o mundo que o cerca, e a palavra escrita sobre eles. É preciso aprender a ler de modo critico e autocrítico. Essa é uma das funções da educação vegana. Assim como o bem-estarista não aceita “rótulos” (o que o abolicionista chama de termos e conceitos), o corpo burocrático escolar reacionário não aceita a prática na criticidade na escola e advoga uma irreal neutralidade na prática educativa. É importante ressaltar que dentro da ideia de neutralidade no ensino entra a reprodução da ideologia dominante. Os alunos são forçados desde o primeiro dia que pisam na escola a assimilar e depois reproduzir uma tradição essencialmente especista, e depois, cinicamente bem-estarista. O domínio humano sobre as outras espécies é algo ensinado como natural, e isso não pode ser questionado. As educadoras e educadores que levam seus alunos a reverem criticamente essa ideia há séculos petrificada, serão tidos como rebeldes, manipuladores, doutrinadores.

Defender a neutralidade na educação, seja ela formal ou não formal, é defender o status quo, a manutenção do domínio tirânico do humano sobre todas as outras espécies além de sua própria.

Ser educador e educadora exige coerência entre o que se fala e o que se faz. A união da teoria ética animalista com a ação abolicionista cotidiana é o que caracteriza a práxis política vegana. Diante de uma hercúlea tradição pedagógica especista, é preciso que educadoras e educadores veganos se coloquem, convictos da ideologia que defendem, nessa aguerrida prática política. O entendimento de que a educação vegana é engajamento político só é possível com muita leitura crítica, tanto do seu mundo quanto da palavra que o descreve.

A convicção de que o veganismo – fundado no principio da não violência – é o primeiro passo para uma respeitosa, justa e democrática convivências com outras pessoas, humanas e não humanas, advém da necessária, e hoje, urgente, leitura crítica da relação entre o texto e o contexto.

Referência:
FREIRE, Paulo (1994). A importância do ato de ler: em três artigos que se completam. São Paulo: Cortez.
Nota: Esse artigo foi apresentado no II Seminário Brasileiro de Educação Vegana Abolicionista, na UMAPAZ, em São Paulo, no dia 15 de julho de 2017.

Leon Denis – Ativista e atleta vegano pelos direitos animais.

Autor da obra Educação vegana: tópicos de direitos animais no ensino médio (2012), organizador das obras Educação & direitos animais (2014) e Educação vegana: perspectivas no ensino de direitos animais (2017), e co-autor das obras: Visão Abolicionista: ética e direitos animais (2010) e, Somos Todos Animais (2014). Pioneiro no ensino de direitos animais e veganismo em escolas públicas no Brasil. Colunista da ANDA – Agência de Noticias de Direitos Animais.

Membro fundador da Sociedade Vegana, da Liga Animalista e da EBRAV (educadores brasileiros abolicionistas veganos)

 

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